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quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

GRANDES CLÁSSICOS - FLUMINENSE X BANGU - 1964


Diante da recém-terminada Taça Guanabara, que consagrou o Fluminense como Campeão e deixou o Bangu como lanterninha sem sequer um mísero ponto conquistado, muitos podem duvidar que, em um passado nem tão distante, o Alvirrubro de Moça Bonita protagonizava com o Tricolor das Laranjeiras embates do mais alto nível. Um deles ocorreu no ano de 1964, para onde ofereço aos amigos uma viagem em primeira classe nas linhas abaixo.


Tão difícil quanto ganhar na Mega-Sena era apontar um favorito absoluto nos Campeonatos Cariocas da época em que o Brasil não incluía seus craques de futebol nos produtos tipo exportação. Para o Cariocão de 1964 eram nada menos do que seis os times que poderiam levantar o caneco sem que alguém pudesse gritar “Que zebra!!!”. Porém, com o desenrolar do torneio, o Vasco, que em alguns momentos apresentou a dupla de zaga Brito e Fontana, futuramente Campeões do Mundo com a Seleção Brasileira em 1970, e o América, que tinha Zizinho, o “Mestre Ziza”, como treinador, ficaram pelo meio do caminho. Restaram, então, Bangu, Botafogo, Flamengo e Fluminense, em ordem alfabética, como postulantes ao título.


O Flamengo, que brigava pelo Bi, tinha no lendário técnico Flávio Costa, dono da marca de oito títulos estaduais no currículo – cinco pelo Fla (39, 42, 43, 44 e 63) e três pelo Vasco (47, 49 e 50) – uma de suas principais armas. Dentro das quatro linhas, o destaque rubro-negro ficava por conta de Carlinhos, um meio-campo de tamanha classe e elegância no trato do couro que receberia o apelido de “Violino”. Pegando a condução da Gávea para General Severiano, o Botafogo apresentava um onze que misturava estrelas do inesquecível esquadrão Bi-Campeão em 61/62 – Manga, Nilton Santos, Rildo, Didi, Quarentinha, Zagallo e até Garrincha, no 1º turno – com as da geração que repetiria o Bi em 67/68, como Gérson, Jairzinho e Roberto Miranda. Vamos e venhamos: estes nomes alvinegros não necessitam de adjetivos, né?


Porém, em um campeonato mais equilibrado que trapezista do Cirque du Soleil, o clichê “todo jogo é uma decisão” é válido. Assim, tropeços do Botafogo em duelos contra os times da parte inferior da tabela e derrotas do Flamengo nas brigas entre os cachorros grandes deixaram ambos empatados e apenas um pontinho atrás dos protagonistas do Cariocão de 1964: Bangu e Fluminense. Lembrando que na época a vitória valia dois pontos, Flu e Bangu terminaram os dois turnos empatados com 35 pontos e no topo da tabela. Assim, o destino do troféu seria decidido em uma melhor de três.


Com uma campanha de somente duas derrotas em 24 jogos, o Bangu começava a montar, neste 1964, aquele que se tornaria um dos times mais lembrados do futebol carioca e conquistaria, dois anos depois, em 1966, o título Estadual. Do goleiro, o ágil Ubirajara, ao ponta-esquerda, o Alvirrubro era recheado de cracaços. Fidélis, o “Touro Sentado”, lateral-direito dono de um preparo físico invejável até para os dias de hoje, e a dupla de meio-campo formada por Ocimar e Roberto Pinto são nomes que espelham a qualidade banguense. Porém, a grande força alvirrubra estava em seu ataque. E que ataque! Na ponta-direita, Paulo Borges fazia de tudo e mais um pouco. Veloz e letal, infernizava as retaguardas adversárias e era daqueles que não precisavam de mapas para encontrar o caminho do gol. Se os dez que marcou neste torneio de 64 não foram suficientes para lhe dar o prêmio de artilheiro – esta honra caberia a um outro devoto do gol, de quem falaremos linhas abaixo – no biênio 66/67 ninguém tiraria Paulo Borges do topo da tabela de goleadores do Estadual.


E não era só o “Gazela”, apelido de Paulo Borges, quem sabia balançar as redes. Juntos, no comando do ataque suburbano, a dupla formada por Parada e Bianchini foi responsável por nada menos do que 25 dos 47 gols da equipe, ou seja, mais do que 50% dos tentos. Para fechar o poderoso ataque, Aladim – que mais tarde também faria história no Coritiba, com a conquista de seis Paranaenses – Cabralzinho e Canhoto se revezaram durante a competição.


“Mas para vencer um Bangu como esse o Fluminense necessitaria de um time de 24 quilates!” – deve estar pensando o amigo. Pois bem, o Fluzão-1964 era, realmente, 100% ouro. Se diz o ditado que todo grande time começa com um grande goleiro, a camisa 1 do Tricolor era vestida por ninguém menos do que Carlos Castilho, o “Leiteria”, goleiro de quatro Copas do Mundo no currículo (além de 50 e 54, foi Bi em 58 e 62) e que aliava uma extraordinária qualidade debaixo das traves com uma sorte que só acompanha os gigantes. À frente de Castilho, o Flu contava com uma dupla de zaga de impor respeito a qualquer ousada e atrevida linha de ataque: o já ídolo tricolor Altair, Campeão do Mundo em 1962 que quando atuou na lateral-esquerda ganhou o status de melhor marcador de Garrincha, e Procópio.


Procópio, assim como o meia Oldair e o atacante Evaldo, todos nomes essenciais neste Flu-64, se tornariam, em poucos anos, nomes históricos do futebol mineiro. O sólido Procópio e o goleador nato Evaldo fizeram parte do maior Cruzeiro de todos os tempos, o de 1966, que venceria a Taça Brasil com duas vitórias inimagináveis sobre o Santos de Pelé: 6 x 2 no Mineirão e 3 x 2, de virada, na Vila Belmiro. Procópio também entrou para a galeria de grandes do Atlético Mineiro pelo que fez dentro de campo e, principalmente, fora de campo, sendo o segundo treinador que mais vezes comandou o clube. Falando no “Galo”, muitos dizem que se não fosse Oldair o Alvinegro Mineiro não teria conquistado o Campeonato Brasileiro de 1971. Como lateral-esquerdo e capitão do time, Oldair marcou, contra o São Paulo, no Morumbi, o gol da vitória do Atlético por 1 x 0. Vitória esta ocorrida na fase final e que deixou o “Galo” muito próximo de levantar o título nacional, o que ocorreria poucos dias depois.


O timaço tricolor segue com um trio que começava, neste 1964, a escrever as primeiras páginas de suas gloriosas carreiras. Falo do inigualável lateral-direito Carlos Alberto Torres, capitão da Seleção Brasileira que conquistaria o Tri Mundial no futuro 1970, do incansável volante Denílson, implacável e de extrema eficiência a missão de proteger a retaguarda tricolor durante toda sua vida dentro das quatro linhas, e do perigoso ponta Gílson Nunes, que seria importantíssimo para o Vasco sair de uma fila de 12 anos sem títulos, em 1970, e para o América vencer a Taça Guanabara de 1974.


E como havia prometido alguns parágrafos acima, chegou a hora de falar do grande artilheiro do Cariocão 1964: Amoroso. Com 26 anos de idade, Amoroso se encontrava naquele período da carreira considerado por algumas teorias como melhor de um jogador de futebol, quando este não está tão jovem a ponto de a inexperiência atrapalhar, nem tão velho para ter problemas com o preparo físico. E mais: chegava ao Fluminense com o cartaz de Bi Carioca pelo Botafogo (61/62). Pois foi com toda esta maturidade que Amoroso se sagraria não só o artilheiro do Carioca de 1964, com 19 gols, como também no do ano seguinte, desta vez com 10 tentos.


Foi do próprio Amoroso, em uma cobrança de pênalti aos 5 minutos do 2º tempo, o gol que deu ao Fluminense a vitória no primeiro confronto decisivo da melhor de três. Mesmo com o caneco mais próximo das Laranjeiras, nenhum dos 75.106 pagantes para a segunda peleja seria capaz de bater o pé e, com a maior das convicções, afirmar quem seria o Campeão Carioca de 1964. Principalmente quando, aos 28 minutos da 1ª etapa, Bianchini abriu o placar para o Alvirrubro. Mas aí veio o intervalo e, com todo o seu imensurável conhecimento do esporte bretão, o treinador tricolor Tim, conhecido como “O Estrategista”, recolocou seus pupilos no caminho da glória. Foram nencessários menos do que dez voltas do ponteiro dos minutos para o Fluzão, gols de Joaquinzinho e Jorginho, virar o escore e colocar mais alguns dedos no caneco, que foi parar de vez nas Laranjeiras quando, aos 22 minutos, Gílson Nunes arrancou pela esquerda e marcou um golaço, “acabando com a vaidade de Moça Bonita”, como diria o lendário programa Canal 100.


Esta não seria a primeira vez que o Fluminense venceria o Bangu em uma finalíssima de Carioca. E nem a última. Em 1951, com dois gols de Telê Santana, e em 1985, ano em que recheou sua história com mais um Tri, o Flu deixaria os banguenses de cabeça inchada. Mas estas, meus amigos, são histórias para outras viagens...


Fluminense 3 x 1 Bangu

20 de Dezembro de 1964

Maracanã – Público: 75.106 pagantes

Gols: 1º tempo: Bianchini (BAN), aos 28’; 2º tempo: Joaquinzinho (FLU), aos 5’, Jorginho (FLU), aos 8’ e Gílson Nunes (FLU), aos 22’.

Fluminense: Castilho; Carlos Alberto Torres, Procópio, Valdez e Altair; Denílson e Oldair; Jorginho, Amoroso, Joaquinzinho e Gílson Nunes. Técnico: Elba de Pádua Lima “Tim”.

Bangu: Aldo; Fidélis, Mário Tito, Paulo e Nílton Santos; Ocimar e Roberto Pinto; Paulo Borges, Parada, Bianchini e Cabralzinho. Técnico: Plácido Monsores.

domingo, 18 de abril de 2010

Grandes Clássicos - Santos x São Paulo 1933

Olá amigos do FUTEBOLA!

Hoje é dia de San-São na Vila Belmiro. Jogo importante, valendo vaga na final do Paulistão. Ao longo dos anos, estes dois grandes clubes protagonizaram inúmeros confrontos históricos, sendo que um dos mais importantes foi um amistoso. Isso mesmo, um dos duelos mais marcantes entre Santos e São Paulo foi um amistoso, e é justamente sobre ele que o “Grandes Clássicos” de hoje vai falar.

Se fizéssemos uma retrospectiva dos anos mais importantes da história do futebol brasileiro, acredito que dois deles brigariam pelo posto de número um: 1933 e 1958. Foi em 1958 que o Brasil conquistou pela primeira vez uma Copa do Mundo, colocando para escanteio o famoso “complexo de vira-latas” criado por Nélson Rodrigues e aliviando um pouco da dor causada pelo “Maracanazzo”. Porém de 58 falaremos em outra oportunidade. Hoje vamos contar uma história ocorrida em 1933, ano da chegada do profissionalismo e que mudou por completo o rumo do futebol brasileiro.

A adoção do profissionalismo por nossos clubes não foi um processo pacífico. Novas Ligas e Associações foram criadas, alguns clubes fecharam suas portas e grandes jogadores brasileiros foram impedidos de atuar na Copa do Mundo de 1934, pois não estavam filiados à CBD (Confederação Brasileira de Desportos), órgão que comandava nosso futebol e era o principal pólo de defesa do amadorismo. Mas a sementinha estava plantada e a hipocrisia, já que diversos clubes defensores do amadorismo pagavam seus craques nas escuras, não tardaria a cair. Para inauguração da nova era, a APEA (Associação Paulista de Esportes Atléticos), um dos principais pilares de sustentação do profissionalismo, escolheu São Paulo e Santos para realizarem o primeiro jogo de futebol profissional da história do Brasil.

Antes de falarmos sobre este histórico San-São, vale fazer uma ressalva. Nesta época, o São Paulo Futebol Clube era conhecido por São Paulo da Floresta e havia sido fundado em 25 de janeiro de 1930 (alguns meios de comunicação datam 26 de janeiro como dia da fundação) pela união da Associação Atlética das Palmeiras (que não possui nenhuma relação com o Palmeiras que conhecemos hoje) com o Club Athlético Paulistano. Em 14 de maio de 1935, após contrair uma grande dívida devido à compra de uma nova sede, o departamento de futebol do São Paulo Futebol Clube foi extinto e a parte administrativa foi fundida ao Clube de Regatas Tietê. Completamente inconformados com o fim do Tricolor Paulista, alguns apaixonados sócios decidiram trazer o clube de volta e, após um processo que durou aproximadamente 7 meses, mais precisamente em 16 de dezembro de 1935, o São Paulo Futebol Clube foi refundado. Simplificando, podemos dizer que o grande São Paulo foi fundado em 1930 e passou um pequeno período inativo em 1935.

No ano de 1933, o torcedor santista não estava muito esperançoso com a equipe. Entre 1927 e 1931, o Santos havia terminado o Paulistão em 2º lugar em quatro oportunidades, exceto 1930 quando foi o 3º lugar. A melhor ilustração da grande qualidade desta equipe santista do final da década de 20 era o poder de sua linha ofensiva, que em 1927 fez o Santos se tornar o primeiro time a anotar 100 gols no Campeonato Paulista, atingindo a inacreditável marca de 6,25 gols por jogo. Porém, em 1933, a dupla Feitiço e Araken Patuska, simplesmente os dois maiores artilheiros da história do Santos pré-Pelé, não estavam mais no clube. E para deixar o torcedor santista ainda mais preocupado, quem, desde 1930, contava com a elegância e faro de gol de Araken era o rival no jogo de nascimento do profissionalismo, São Paulo.

O goleiro santista na época era excelente debaixo das traves, porém seria ainda mais importante pro clube depois de se aposentar dos gramados. Após fornecer ao Alvi-Negro Praiano suas qualidades de grande goleiro, Athiê Jorge Cury, que quando jogador era simplesmente Athiê, se tornou presidente do Santos Futebol Clube, melhor dizendo, se tornou o presidente que mais tempo ocupou o cargo na história do clube, de 1945 e 1971. Pois é, durante os anos mais vitoriosos do Santos, a conhecida Era-Pelé, o presidente do clube era o ex-goleiro Athiê. Na outra ponta do campo, lá no ataque, o destaque ficava por conta de Mário Seixas. Em 1922, ainda com 20 anos, Seixas, então atuando pelo Americano-RJ já mostrava grande qualidade chegando a ser convocado pela Seleção Brasileira. Pelo Santos, o atacante marcaria 67 gols em quatro anos (1931-1935) e faria parte da equipe que seria Campeã Paulista em 1935.

Se em 1933 o Santos, apesar de contar com alguns ótimos jogadores, não era um esquadrão, não podemos dizer o mesmo do São Paulo. Em 1933, o Tricolor era realmente um “Esquadrão de Aço”, apelido que recebeu na época. Vejamos algumas sapatadas que o Sampa aplicou em seus rivais no ano:

SÃO PAULO 7 X 1 YPIRANGA (SP)
SÃO PAULO 5 X 0 SÃO BENTO (SP)
SÃO PAULO 5 X 1 VASCO DA GAMA
SÃO PAULO 7 X 1 SÍRIO (SP)
SÃO PAULO 7 X 3 FLAMENGO
SÃO PAULO 7 X 4 AMÉRICA (RJ)
SÃO PAULO 12 X 1 SÍRIO (SP)
SÃO PAULO 6 X 1 CORINTHIANS – maior goleada da história do clássico
SANTOS 2 X 6 SÃO PAULO, na Vila Belmiro
FLUMINENSE 2 X 5 SÃO PAULO, no Estádio das Laranjeiras

Amigos, não teria como ser diferente. Com a linha ofensiva que o São Paulo possuía, balançar as redes estava longe de ser uma tarefa difícil. Como citei anteriormente, ninguém menos do que Araken Patuska estava presente na linha de frente tricolor. Sempre com sua brilhantina no cabelo e um bigodinho bem cultivado, Araken mostrava elegância também com a pelota nos pés. Além de muito habilidoso, Araken sabia como sacudir o filó. Pelos lados do campo, o Sampa possuía dois dos que viriam a ser figurinhas obrigatórias em qualquer eleição dos maiores pontas da história do futebol brasileiro. Pela direita, Luizinho Mesquita mostrava um futebol repleto de qualidades. É uma tarefa quase impossível escolher uma característica principal dentre as muitas que o craque possuía, já que era um ponta de grande velocidade, driblador nato e parecia jogar com uma régua amarrada nas chuteiras, tamanha a precisão de seus cruzamentos e chutes. Vale ressaltar que todas estas qualidades de Luizinho estiveram a serviço da Seleção Brasileira nas Copas do Mundo de 1934 e 1938. Se em 1933 Luizinho já era um dos pilares do Tricolor, sendo importantíssimo desde a conquista do caneco paulista em 1931, no outro lado, pela ponta-esquerda, um novato começaria a mostrar seu futebol neste ano. Apenas uma coisa era mais forte e potente do que os chutes do ponta que chegara ao São Paulo, vindo do Juventus. Era seu nome: Hércules. Uma frase sensacional de Geraldo Romualdo da Silva, um dos nossos grandes cronistas esportivos, definiu bem o futebol de Hércules. De acordo com ele, Hércules possuía “um canhão no pé esquerdo e um míssil no direito”. Esta frase foi dita durante a passagem de Hércules pelo Fluminense, na segunda metade dos anos 30, quando ele se consagrou como um dos maiores pontas da história do futebol brasileiro.

Assim como Hércules, um outro futuro cracaço de bola começava a mostrar sua categoria com a camisa tricolor. Sabem aquele tipo de jogador que faz gols como se fosse a coisa mais fácil do mundo? Pois é, Waldemar de Brito era um deles. Só para ilustrar a relação estreita que Waldemar possuía com as redes, na sua primeira temporada pelo São Paulo, esta mesmo de 1933, ele se sagrou artilheiro do Campeonato Paulista e Torneio Rio-São Paulo. Entretanto, assim como o goleiro do Santos Athiê, que ficou mais famoso após abandonar as quatro-linhas, Waldemar de Brito também escreveu seu nome na eternidade após largar os gramados. O motivo? Ter levado para o Santos um escurinho que ele assistiu nos campinhos de Bauru e que mais tarde se tornaria o maior jogador de futebol de todos os tempos. Foi o artilheiro tricolor Waldemar de Brito quem “descobriu” Pelé.

Bom, acredito que um ataque que contava com Luizinho, Waldemar de Brito, Araken Patuska e Hércules já tiraria o sono de qualquer sistema defensivo que teria a missão de pará-lo. Mas acreditem, ainda faltava a estrela principal, o maior jogador brasileiro da era do amadorismo: Arthur Friedenreich. Reza a lenda que Fried marcou mais de 1000 gols na carreira, o que está escrito até mesmo no Guiness Book Of Records. Estes gols foram contabilizados por seu pai e mais tarde por um amigo, cuja a família perdeu os dados após seu falecimento. Mas Fried fazia tantos, mas tantos gols, que uma recontagem feita pelo pesquisador Alexandre Costa para o livro “O Tigre do Futebol”, que diga-se de passagem é um livraço que já li duas vezes, apontou 556 gols em 561 partidas, o que resulta em uma média de 0,99 gols por jogo. Além desta capacidade extraterrestre de marcar gols, Fried também era um leão, ou melhor, um tigre em campo. Foi no Sul-Americano de 1916, o primeiro realizado, que Friedenreich recebeu o apelido de “El Tigre”, devido à sua grande agilidade e ainda maior garra. Apesar do nome e da descendência alemã, Fried era um brasileiro como poucos. Uma passagem do citado livro de Alexandre Costa nos mostra isso com perfeição: “Os confrontos entre Brasil e Argentina sempre foram regados a muita rivalidade, violência e até um pouco de futebol. Em 1921, o Paulistano foi convidado para uma rápida excursão aos nossos vizinhos platinos. Mais técnicos, os brasileiros suportaram bem a pressão adversária, arrancando um suado 1 x 0. Inesquecível, porém, foi o que aconteceu perto do fim da partida. A torcida local, enfurecida, afinal sua seleção perdia para um clube, ateia fogo em uma bandeira do Brasil. Do campo, Friedenreich vê a chocante cena e fica louco da vida. Abandona o jogo e sai correndo, alucinado, em direção à bandeira que se esvaia em chamas. Com sua camisa, apaga o incêndio e consegue salvar um pequeno pedaço do manto que, para Fried, seria uma relíquia guardada até sua morte. O estádio inteiro ficou impressionado com a atitude do Tigre brasileiro. Foram longos 60 segundos de um silêncio ensurdecedor.”

A partida estava datada para o dia 12 de março e uma curiosidade marcava a escalação do São Paulo. O goleiro, os zagueiros e os médios tricolores, todos, sem nenhuma exceção, fariam sua primeira partida com a camisa do São Paulo. Destes estreantes, o médio Zarzur era o destaque. Recém-contratado junto ao Vasco, clube onde formou junto com o uruguaio Figliola e o argentino Dacunto a famosa linha-média conhecida como “Três Mosqueteiros”, Zarzur possuía liderança e qualidade defensiva que seriam de gigantesca importância para o São Paulo. Mais duas novidades estavam presentes na escalação são-paulina. Para a alegria dos tricolores, Friedenreich, que era dúvida para o jogo, pois estava contundido, foi confirmado. Por outro lado, Luizinho amanheceu doente e seria substituído por Patrício. Muitos torcedores do Sampa viajaram até Santos para assistir ao confronto e, como sempre ocorreu na história do futebol, aproveitaram para tirar sarro dos santistas chamando-os de “peixeiros”. O que os tricolores não sabiam era que esta simples brincadeira com o povo praiano originaria o apelido de “Peixe” que até hoje acompanha o Santos. Como se não bastasse a importância do duelo que estava por começar, um grande fato já estava sendo escrito na história do futebol paulista, afinal em qualquer canto deste Brasil Santos e “Peixe” são sinônimos.

A partir do apito inicial, cada segundo de jogo seria marcante. Teria o futebol profissional brasileiro o seu primeiro escanteio, a primeira falta, o primeiro lateral... E adivinhem quem foi o encarregado de ser o autor do gol de número 1 da história do profissionalismo? Isso mesmo, só poderia ter sido ele. Aos 18 minutos da 1ª etapa Fried dribla seu marcador e, de canhota, sacode o barbante. O São Paulo permanece mostrando seu poder ofensivo e o futuro presidente Athiê sofria para tentar contê-los. Já no finalzinho do 1º tempo, aos 45 minutos, Fried inicia mais uma jogada e, desta vez, rola a pelota para Araken Patuska ampliar o placar. Logo após o intervalo, o atacante santista Logu diminui a vantagem tricolor e parece que vai colocar fogo no jogo, mas os torcedores tricolores nem se assustaram, pois com Waldemar de Brito em campo, não tem placar em branco. Em menos de 10 minutos, mais precisamente aos 21 e 29 da 2ª etapa, Waldemar balançou as redes duas vezes e transformou o jogo em goleada. O Santos não tinha nem idéia do que fazer para parar o “Esquadrão de Aço”. Fechando o caixão praiano, Fried e Araken tabelam novamente e o último colocou 5 x 1 no placar.

Somente em 1937, após muitas disputas e jogos de interesses entre defensores do amadorismo e do profissionalismo, o futebol profissional se consolidou no Brasil quando, em troca de se manter no comando do futebol do país, a CBD aceitou o profissionalismo. E tudo começou lá em 1933, quando o “Esquadrão de Aço” de Friedenreich, Araken Patuska e cia goleou o Santos em plena Vila Belmiro.

Santos 1 x 5 São Paulo
12 de março de 1933
Vila Belmiro – Público: desconhecido
Gols: 1º tempo: Friedenreich (SPa) aos 18’ e Araken (SPa) aos 45’; 2º tempo: Logu (San), Waldemar de Brito (SPa) aos 21’, Waldemar de Brito (SPa) aos 29’ e Araken (SPa) aos 41’.
Santos: Athiê; Meira e Garcia; Waldomiro, Bisoca (Dino) e Alfredo (Bisoca); David, Armandinho (Victor), Catitu (Strauss), Seixas e Logu.
São Paulo: Moreno; Sylvio Hoffmann e Iracino; Ferreira, Zarzur e Orozimbo (Rapha); Patrício, Waldemar de Brito, Friedenreich, Araken e Hércules.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Grandes Clássicos - Vasco x Fluminense 1994

Grandes Clássicos - Vasco x Fluminense 1994

Sábado de carnaval será dia de um grande clássico do futebol carioca: Fluminense x Vasco. Aproveitando a proximidade com este jogaço, a coluna Grandes Clássicos irá relembrar como foi a última rodada do quadrangular final do Campeonato Carioca de 1994, quando estes dois gigantes do nosso futebol se enfrentaram em busca do caneco.

O Cariocão de 94 foi daqueles que já iniciou com roteiro pronto. Foi o típico torneio do “todos contra um”, pois, após conquistar os Estaduais de 92 e 93, o Vasco era o time a ser batido na competição que se iniciava. Sempre quando uma equipe está em busca do Tri, a história mostra que os adversários se esforçam ao máximo para impedi-la. Já consciente das pedras que teria pelo caminho, o Gigante da Colina resolveu se reforçar para buscar seu primeiro Tri-Campeonato Carioca na história. E nem de longe eram reforços para compor o elenco. Para o setor defensivo, o Cruzmaltino contratou um zagueiro cuja a solidez que mostrava em campo era comprovada por seu próprio nome: Ricardo Rocha. Já experiente, com título brasileiro pelo São Paulo, passagem pelo Real Madrid e uma Copa do Mundo disputada com a Seleção em 1990, Ricardo Rocha chegava para se tornar o grande líder da defesa vascaína. Logo em sua apresentação ele já mostrou o seu espírito ao proclamar: “Com a minha chegada, o Vasco assegura o Tri”*. Já na linha de frente, o Vasco trouxe uma das maiores, talvez a maior, revelação do futebol brasileiro naquele momento. Com apenas 22 anos de idade e surgido na Portuguesa, o garoto Dener era daqueles que incendiava até partida em inverno russo. Descrições como “dono do futebol mais moleque que o torcedor brasileiro pôde ver desde Garrincha”**, apenas mostram o seu potencial e sua qualidade técnica. Resumo da ópera: chegavam para se juntar à base vascaína Bi-Campeã Estadual um zagueiro e um atacante que teriam vaga em quase todas as equipes do mundo.

Existe um velho ditado, que todos no mundo do futebol já escutaram ao menos uma vez, que diz que toda grande equipe começa por um grande goleiro. E o Vasco de 94 não desobedecia em nada estas palavras. Vestindo a camisa 1 da Colina estava o excelente Carlos Germano, um goleiro sóbrio e de uma segurança imensa que, aos 23 anos apenas, passava uma tranquilidade para equipe que poucos seriam capazes. Se a defesa sabia que atrás Carlos Germano tomaria conta de tudo, a proteção na frente não deixava nada a desejar. A dupla de volantes formada por Leandro Ávila, um prata-da-casa que caiu como uma luva na equipe mostrando excelente senso de marcação e bom passe para a saída de jogo, e Luisinho, um verdadeiro cão-de-guarda que já havia conquistado nada menos do que 4 títulos cariocas (Bi com o Botafogo em 89/90 e Bi com o Vasco em 92/93) e, na época, era jogador de Seleção Brasileira. Falando em Seleção Brasileira, o meia Yan, que comandava as ações ofensivas vascaínas com muita criatividade, havia acabado de se sagrar Campeão Mundial de Juniores com a camisa amarela, em 1993. A missão de Yan era bastante facilitada pela imensa qualidade da dupla de ataque cruzmaltina. Ao lado de Dener, estava o já bastante conhecido Valdir “Bigode”. Aos 22 anos de idade, Valdir já havia feito dupla com o eterno ídolo vascaíno Roberto Dinamite no título de 1992 e se sagrado artilheiro do Estadual na campanha vitoriosa de 1993. Apesar da pouca idade, Valdir já mostrava que possuía muito futebol e personalidade para ser um dos principais jogadores vascaínos. Em 1994, as defesas adversárias sofreriam muito com a velocidade e tiro certeiro do “Bigode”.

Logo na 1ª fase do Cariocão, o Vasco não deu chance para seus adversários. Das 11 partidas disputadas, o Gigante da Colina venceu 8 e empatou 3, fora os bailes que Flamengo (3 x 1) e Botafogo (2 x 0) levaram. Para fechar com chave-de-ouro a 1ª etapa do torneio, uma chinelada de 4 x 1 no Fluminense do goleador Ézio, na disputa pela Taça Guanabara. Um verdadeiro show da dupla Dener/Valdir, com direito à jogadas que deveriam estar expostas no Museu Nacional.

Para a disputa da fase final, que contaria com dois duelos entre todos os 4 classificados (Vasco, Fluminense, Flamengo e Botafogo), os rivais precisavam abrir os olhos com urgência, ou o Vascão seria, assim como em 1992, campeão invicto. Após as duas primeiras rodadas, o Vasco ainda se mantinha na liderança devido aos 2 pontos extras conquistados por ter sido a melhor equipe da 1ª fase, porém o Flamengo, com vitórias de 3 x 1 sobre Fluminense e Botafogo, começava a mostrar recuperação. Contando com uma dupla de ataque formada por Charles Baiano, que seria o artilheiro do torneio ao lado de Túlio Maravilha, do Fogão, e com o jovem e endiabrado Sávio, o Rubro-Negro vinha com tudo para impedir o Tri de seu rival. Quando, enfim, alguma equipe mostrava capacidade de tirar o título do Vasco e, para deixar o torneio ainda mais emocionante, as duas próximas rodadas seriam duelos entre Fla e Vasco, uma tragédia atingiu São Januário. Ou melhor, o futebol brasileiro. Em um acidente de carro morria, aos 23 anos, o genial Dener. Não é nem necessário falar o quanto os jogadores vascaínos sentiram a perda do amigo. A equipe, claro, ficou psicologicamente destruída, mas a luta não podia parar. Era a hora de homenagear o companheiro que tanto queria o título. Apesar da derrota para o Fla em um dos duelos, a primeira do time no campeonato, o Vasco chegava à última rodada dependendo somente suas forças para conquistar o caneco. O rival seria o Fluminense, que havia acabado de sapecar 7 x 1 no Botafogo e vencer o Flamengo.

Após estes dois triunfos seguidos do Tricolor, ninguém era mais capaz de dizer que o Campeonato estava no papo do Vasco. E tem mais! Com a vitória do Fla sobre o Fogo, por 2 a 0, a situação ficou a seguinte: Vasco e Fluminense se enfrentariam e o vencendor levaria o caneco para casa, porém em caso de empate o Flamengo ficaria com o título. Um final de torneio simplesmente espetacular. O Fluzão vinha para o jogo apostando nos gols daquele que ficou para a história como um de seus maiores ídolos: “Super Ézio”. Ézio chegou ao Fluminense em uma época em que rareavam títulos e dinheiro no clube e sempre mostrou uma dedicação impressionante dentro de campo e fora dele, além de um amor incondicional ao Tricolor. O Flu ainda contava com o fôlego do Alfinete, o canhão do Branco, a experiência do Jandir, as arrancadas do Luiz Henrique e a velocidade do Mário Tilico. O Fluminense possuía sim suas armas para derrotar o Vasco e levar o caneco para as Laranjeiras.

O dia 15 de maio de 1994 amanheceu com todos os vascaínos desejando a conquista inédita do Tri-Carioca. Os jogadores cruzmaltinos tinham em seus pés a oportunidade de conquistar algo que craques do calibre de Ademir Menezes, Roberto Dinamite e Romário não haviam conseguido. Consciente desta oportunidade de marcar o nome na história, Valdir e cia entraram em campo voando. Apenas três minutinhos após o juiz autorizar o início da partida, o lateral-deireito Pimentel é derrubado na área e o Vasco tem a chance de abrir o marcador na cobrança de pênalti. Porém, Yan bate a cobrança nas mãos do goleiro tricolor Ricardo Cruz e desperdiça a oportunidade de colocar sua equipe em vantagem. Geralmente, após um pênalti perdido, uma equipe tem seu rendimento prejudicado e vê seu oponente crescer. Não foi o que ocorreu. Logo aos 6 minutos, após lindo contra-ataque, Valdir recebe a pelota na esquerda, cruza para a área e o herói do dia aparece pela primeira vez. Ao escorar para o fundo do gol o cruzamento do “Bigode”, o esguio centroavante Jardel fez o Vasco colocar uma mão na taça do Cariocão. Um gol logo após perder um pênalti era tudo que o Gigante da Colina precisava. Até o final da 1ª etapa, o Vasco sempre teve as rédeas do jogo. Defensivamente, Ricardo Rocha e seus companheiros não deixavam Ézio sequer ver a cor da bola e, no ataque, os passes de Yan e a movimentação de Valdir infernizavam os tricolores. Vale ressaltar a versatilidade do camisa 7 vascaíno Valdir. Após atuar durante praticamente todo o torneio, de maneira excelente, ao lado de um jogador veloz e ágil como o Dener, Valdir agora cumpria, também com muita qualidade, o papel de parceiro do Jardel, um centroavante de enorme estatura e pouca mobilidade.

Tentando ganhar o controle do meio-campo e, consequentemente, o da partida, Delei, treinador do Flu, colocou em campo o lateral-esquerdo Lira e passou o Branco para a meiúca. E foi justamente pelo setor esquerdo da defesa tricolor que o Vasco voltou pressionando. Usando e abusando da ofensividade do lateral Pimentel e dos inúmeros buracos na defesa adversária, o Vasco quase ampliou a vantagem por quatro vezes. Isso mesmo, em 15 minutos, o Vasco criou um caminhão de oportunidades de balançar as redes. Cabeçada de Yan que assustou Ricardo Cruz, cabeçada de Jardel que acertou o travessão, chute longo de Valdir e, por último, finalização de Jardel, de dentro da área, que fez todo tricolor prender a respiração. “O Vasco dá um show. Taticamente falando, o Vasco dá um show. Movimenta todo o time do Fluminense ao seu bel-prazer.”, assim foi definida, naquele momento, a atuação vascaína, pelo comentarista da TV Bandeirantes Gérson “Canhotinha de Ouro”.

Para endereçar de vez o caneco para São Januário, o iluminado Jardel aproveita a arrancada de William e, aos 17 minutos, sacode o barbante. 2 a 0 Vascão! Era impossível controlar a festa cruzmaltina na arquibancada. O Fluminense ainda assustaria duas vezes. Primeiro, Mário Tilico, que nas vésperas da partida prometeu que o Flu venceria o campeonato, mas na hora do jogo pouco fez para cumprir suas palavras, perdeu um gol cara a cara com Carlos Germano. Mais tarde, Lira cobrou falta com muita categoria e carimbou a trave. Estes dois lances, porém, em nada diminuíram a força dos gritos de Tri-Campeão que já ecoavam pelo Maraca.

Faltando 15 minutos para o fim da partida, os gritos de “Tri... Tri... O Vasco é Tri... Tererê...” deram lugar às homenagens aos campeões. Todos eles tiveram seus nomes gritados pelos eufóricos vascaínos. Por fim, honras àquele que não pôde estar presente na festa. “Ê cafuné... Ê cafuné... O Dener é a mistura do Garrincha com o Pelé...”

Vasco 2 x 0 Fluminense
15 de maio de 1994
Maracanã – Público: 66121 pagantes
Gols: 1º tempo: Jardel (Vas) aos 6´; 2º tempo: Jardel (Vas) aos 17´.
Vasco: Carlos Germano; Pimentel, Ricardo Rocha, Alexandre Torres e Cássio; Leandro Ávila, Luisinho, William e Yan; Valdir e Jardel. Técnico: Jair Pereira.
Fluminense: Ricardo Cruz; Alfinete, Rau, Luís Eduardo e Branco; Jandir, Cláudio (Lira), Luiz Antônio e Luís Henrique; Mário Tilico e Ézio. Técnico: Delei.

*Revista Placar – Grandes Reportagens de Placar – Vasco
** Mini-Enciclopédia do Futebol Brasileiro – Lance!

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Grandes Clássicos - São Paulo x Botafogo 1981

Botafogo e São Paulo estão crescendo a cada rodada no Brasileirão deste ano. Quando estes dois gigantes do nosso futebol se encontraram em 1981, o que estava em jogo era uma vaga na finalíssima do Brasileiro. A partida foi digna de um Campeonato que contava com grandes estrelas do futebol mundial, com emoção do início ao fim. Vamos ver como foi este jogão de bola.

No início da década de 80, uma geração de grandes craques começava a se consolidar no Brasil. Era uma época onde as nossas estrelas desfilavam seus talentos em gramdos nacionais. Raros eram os jogadores que tinham sua qualidade reconhecida no exterior e atuavam fora do país, afinal as informações “viajavam” em uma velocidade muito menor do que hoje em dia. Sorte nossa. No Campeontato Brasileiro de 1981, eram tantos times fortes que seria impossível apontar somente um único favorito.

Para se ter um idéia do quão disputado era o Brasileirão, imaginem a seguinte equipe: Paulo Vítor (Fluminense); Zé Maria (Corinthians), Luisinho (Atlético Mineiro), Edinho (Fluminense) e Wladimir (Corinthians); Delei (Fluminense), Toninho Cerezo (Atlético Mineiro) e Sócrates (Corinthians); Éder (Atlético Mineiro), Reinaldo (Atlético Mineiro) e Cláudio Adão (Fluminense), treinada pelo lendário Oswaldo Brandão (Corinthians). Esta é uma equipe tão forte, que poderia sem problema algum vestir a camisa da Seleção Brasileira, porém nem Fluminense, nem Corinthians, nem Atlético Mineiro, conseguiram alcançar a fase quartas-de-final do Brasileiro de 1981, tamanha a dificuldade do torneio.

No meio de equipes que se destacavam pela técnica, uma se sobressaía pela obediência tática. O Botafogo, treinado pelo Paulinho de Almeida, que é eleito constantemente e por diferentes fontes como o maior lateral-direito do Internacional em todos os tempos, era uma equipe que tinha como pontos fortes a boa postura em campo e um mortal contra-ataque. Pode-se dizer que o Fogão era um time de operários que sabiam muito bem o que fazer dentro das quatro-linhas. Talvez em nenhum momento da história alvi-negra o apelido de “Estrela Solitária” tenha caído tão bem, pois toda a categoria presente na equipe botafoguense estava nos pés do meia Mendonça. O jornalista Roberto Porto, um ilustre alvi-negro, mediu assim a qualidade técnica do camisa 8: “Um craque certo num momento errado, porque aquele Botafogo não estava à altura do Mendonça.”*. Sobre o momento que vivia o Fogão, vale ressaltar que a equipe não conquistava um título desde o Campeonato Carioca de 1968.

O Botafogo começou muito mal o Brasileirão de 1981. Derrotas para a Portuguesa, o Goiás e o Galícia (BA), quase eliminaram o Bota ainda na fase inicial do torneio. Já na etapa seguinte, a equipe mostrou evolução e, em um grupo que contava com Santos Bangu e Mixto(MT), conquistou 3 vitórias e 3 empates se classificando de maneira invicta. Porém, foi somente na fase final daquele Brasileiro que o Fogão mostrou que a conquista do título poderia ser real. Nas oitavas-de-final, a equipe passou com tranquilidade pelo CSA, garantindo a vaga para enfrentar o Flamengo. O ano de 1981 se tornaria o mais importante da história rubro-negra, após a conquista do Carioca, da Libertadores e do Mundial de Clubes, entretanto, o Bi-campeonato Brasileiro do Mengão teria que esperar mais um pouco. Com vitórias em ambos os duelos, o Botafogo eliminou o favorito Flamengo, de Zico e companhia, de maneira sensacional. Após vencer a primeira partida por 1 a 0, o Fogão deu um verdadeiro show no jogo de volta, vencendo por 3 a 1, com uma atuação inesquecível de Mendonça. O Flamengo havia saído na frente, com um gol de Zico, aos 4 minutos, mas Mendonça empatou a partida logo antes do intervalo, tranquilizando a torcida alvi-negra. Com o andamento do 2º tempo, o Flamengo se abria cada vez mais em busca da classificação, cedendo espaços para o forte contra-ataque botafoguense. Aos 40 minutos, o atacante Jérson praticamente fechou o caixão do Flamengo, após passe de Mendonça, e aos 43, todos os mais de 130 mil torcedores presentes ao Maracanã deveriam comprar outro ingresso. Após cruzamento de Édson da direita, Mendonça, dentro da área, mata a bola no peito. O lateral da Seleção Brasileira, Júnior, vem sedento em sua marcação e o alvi-negro dá um toque de letra na pelota para trás e em seguida, com uma velocidade impressionante, a puxa para frente, deixando o “Capacete” perdido. O gol em seguida foi um simples detalhe, diante de um drible tão espetacular. No hall dos elevadores do Maracanã, havia um pôster mostrando este drible, porém os torcedores do Botafogo, não se sabe ainda o motivo, não podem mais se deliciar com a homenagem ao Mendonça, pois a imagem foi retirada do local.

O adversário do Botafogo na semi-final seria o São Paulo, uma verdadeira Seleção. Começando pelo goleiro Waldir Perez, que já conquistara um Brasileirão com o São Paulo, em 1977. Mesmo considerado inseguro por alguns torcedores, principalmente os rivais, Waldir contava com a confiança do treinador da Seleção Brasileira, Telê Santana, e foi o dono da posição na Copa do Mundo de 1982. A dupla de zaga do São Paulo foi uma das maiores da história do clube. Oscar e Daryo Pereira davam toda a segurança necessária para o Tricolor mostrar seu futebol esbelto e ofensivo. Toda a imponência e seriedade de Oscar também estiveram a serviço da Seleção, nas Copas de 1978 e 1982. Já Darío Pereyra, não podia servir o Brasil. Mas não pensem que foi por falta de qualidade, afinal Darío foi um dos raros zagueiros que conseguiu aliar raça e técnica em altíssimo nível. É que o craque era uruguaio.

Como citei anteriormente, o São Paulo era uma equipe muito ofensiva. O lateral-esquerdo, Marinho Chagas, por exemplo, era incisivo não só pelos lados do campo, mas também pela faixa central. Se hoje é normal os laterais centralizarem as jogadas, na época era um inferno para o sistema defensivo adversário quando um lateral, ainda mais da qualidade de Marinho, saía de sua posição para organizar jogadas pela meiúca. Meiúca esta que contava com o excelente Renato “Pé Murcho”, um dos pilares do Guarani, Campeão Brasileiro de 1978 e reserva imediato de Zico na Copa do Mundo de 1982. Renato possuía este apelido pois seu chute era muito fraquinho, porém esta deficiência era compensada pela habilidade e inteligência que ele demostrava no meio-campo.

Como se não bastasse um lateral perigosíssimo e um meia que deixava qualquer defesa de cabelo em pé, o São paulo ainda contava com um ataque de encher os olhos. Pela ponta-direita, Paulo César dava tanto trabalho aos adversários que era conhecido como “Capeta”. Já pelo outro lado, era Zé Sérgio quem criava as jogadas tricolores. Aliando grande velocidade e facilidade para driblar, Zé Sérgio só era parado na base da pancada, o que lhe deixou por muitas vezes no departamento médico. O jogador que tinha a responsabilidade de aproveitar as inúmeras oportunidades de gols criadas pela impetuosa dupla de pontas era o catimbeiro Serginho. Amigos, o “Chulapa”, como era conhecido por seus pés grandes, balançou tantas redes que até hoje é o maior artilheiro da história do São Paulo, com 242 gols marcados.

O retrospecto do São Paulo, até a semi-final do Brasileirão, foi muito mais animador do que o de seu rival, o Botafogo. Nos 15 jogos envolvendo as duas primeiras fases, foram 8 vitórias e apenas 1 derrota. E tem mais! Se o Botafogo havia ganhado moral ao eliminar o poderoso time do Flamengo, a vida do São Paulo também não tinha sido nada fácil. Nas oitavas o Tricolor eliminou o Santos e nas quartas, o forte Internacional de Benítez, Mauro Galvão e Rúben Paz. Somando os 4 duelos desta fase decisiva, contra Santos e Inter, o Sampa havia conseguido nada menos do que 4 vitórias. Se o São Paulo era considerado favorito pelo retrospecto e pelos craques, a situação ficou mais complicada para o Tricolor, após perder o primeiro jogo, por 1 a 0, no Maracanã. Sendo assim, na partida de volta, qualquer vitória simples classificaria o estrelado time do São Paulo, já um empate era o suficiente para o inteligente Botafogo avançar a finalíssima.

Dia 26 de abril de 1981, o Morumbi estava completamente lotado para o duelo que iria decidir quem continuaria na briga pelo título de melhor equipe do país. O torcedor tricolor estava esperançoso, afinal torcia para uma equipe de craques e precisava de uma simples vitória. Pelo outro lado, o Botafogo poderia colocar em pratica a sua maior arma, o contra-ataque, já que o São Paulo teria que sair para o jogo. O que surpreendeu na equipe botafoguense, entretanto, foi a tranquilidade mostrada no início da partida, quando se esperava um São Paulo colocando fogo no jogo. O Fogão estava organizado defensivamente, tocava bem a bola e gastava bastante tempo em cada defesa do goleirão Paulo Sérgio. Foi neste tom que o lado-esquerdo alvi-negro encontrou uma brecha no sistema defensivo paulista, quando os atacantes Jérson e Marcelo tabelaram com muita qualidade, logo aos 10 minutos de jogo, e Jérson colocou a pelota no fundo das redes.

O torcedor tricolor ficou atortoado. O time, mais ainda. Tentando buscar a vitória de maneira afoita, o Sampa deixava buracos atrás que não deveria. Aos 19 minutos, o lateral-direito botafoguense Perivaldo, que diga-se de passagem jogou uma barbaridade neste Brasileiro, sendo eleito o melhor do torneio em sua posição, puxou um rápido ataque e Mendonça, o craque alvi-negro, completou a jogada com a maestria de sempre. 2 a 0 Fogão. Era possível escutar o zumbido de uma mosca, tamanho o silêncio que assolava o Morumbi. Em 20 minutos o Botafogo mostrou uma consciência tática de fazer inveja à muitas equipes representantes do tão badalado “Futebol Total”.

Buscando modificar o panorama do jogo, o São Paulo havia substituído o meia Heriberto pelo Éverton, mais ofensivo e, principalmente, que chutava muito bem. Entretanto, o dia parecia ser mesmo alvi-negro. Jogada de Paulo César pela esquerda, cabeçada de Serginho e defesaça de Paulo Sérgio. Outra boa jogada do “Capeta”, Serginho perde a disputa na área e Éverton, já mostrando o motivo de sua entrada, manda um petardo para outra bela defesa do goleirão do Botafogo. Mostrando que o São Paulo realmente estava mais solto em campo, Marinho Chagas aparece pelo meio organizando uma jogada e a finalizando de chute longo, também defendido por Paulo Sérgio. Somente aos 44 minutos, após um pênalti muito discutível do zagueiro Gaúcho, em Serginho Chulapa, a muralha Paulo Sérgio foi perfurada, pelo próprio atacante tricolor. Este gol animou, e muito, o São Paulo, pois se a equipe fosse para o vestiário perdendo por 2 gols, retornaria para a 2ª etapa somente para fazer número.

O intervalo da partida foi uma verdadeira loucura. Jogadores botafoguenses foram ameaçados por seguranças locais e muitos dizem que até o trio de arbitragem foi muito pressionado. Em um determinado momento, no vestiário do Botafogo, decidiu-se que a equipe não retornaria ao gramado, porém o Presidente da FERJ (Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro), Octávio Pinto Guimarães, demoveu todos desta idéia. O intervalo durou nada menos que 28 minutos e o Botafogo voltou para a partida completamente perdido. Também pudera, ao invés de tentar aparar as arestas da equipe, que fizera um bom 1º tempo, a conversa no vestiário foi sobre voltar, ou não, para o gramado.

O São Paulo se aproveitava do estado de espírito botafoguense e pressionava. Muito forte ofensivamente, o Tricolor se utilizava de suas já conhecidas armas. Novamente Serginho cabeceia uma bola, desta vez cruzada por Zé Sérgio, para sensacional defesa de Paulo Sérgio. Marinho Chagas também repetiu a dose da 1ª etapa e mandou uma bomba que passou raspando a trave. O Botafogo até conseguiu escapulir em um contra-ataque, desperdiçado pelo Ziza, porém a equipe carioca era só chutão para onde o nariz apontava. Aos 21 minutos, um dos momentos mais belos já presenciados no Morumbi. Após escanteio cobrado por Zé Sérgio, o volante alvi-negro Rocha tira a pelota para a entrada da área. Neste momento aparece o meia Éverton, o mesmo que a torcida pedira a entrada após o segundo gol do Botafogo, acertando uma bomba de primeira, sem deixar a bola quicar, no ângulo. Indefensável. Inacreditável. 2 a 2 no placar e o Morumbi voltava a tremer. As palavras do arqueiro botafoguense, Paulo Sérgio, são perfeitas para explicar como o Botafogo absorveu o golpe: “2 a 2 e a casa caiu. Ali a gente já sabia que não dava mais pra segurar. Enfim, já tinha ido pro espaço.”**

Se a virada tricolor parecia mesmo ser uma questão de tempo, aos 26 minutos, com a expulsão do defensor botafoguense, Gaúcho Lima, ela se tornou inevitável. Logo após ficar com um homem a mais em campo, o herói da partida, Éverton, aproveita um passe de Darío Pereyra, de cabeça, mal dominado por Serginho, para desempatar a partida. Não era dia do Botafogo. De maneira inexplicável, o Fogão quase empatou a partida, primeiro com Perivaldo cobrando falta no travessão e, em seguida, com o tricolor Assis obrigando Waldir Perez a evitar um golaço contra. Porém, o dia era do São Paulo. Era de Éverton.

Passado estes dois sustos, o Tricolor apenas administrou o resultado para garantir a vaga na finálissima do Brasileirão de 1981. O apito final do árbitro Bráulio Zanotto fez o Morumbi explodir como se fosse a comemoração de um campeonato. Mais de 100 mil torcedores comemoravam uma vitória histórica, que ainda veio recheada com um dos gols mais bonitos do nosso futebol. Na Entretanto, o título só seria disputado na semana seguinte, contra o Grêmio. Mas aí meus amigos, já é outra história...


São Paulo 3 x 2 Botafogo

26 de abril de 1981

Morumbi – 98650 pagantes

Gols: 1º tempo: Jérson (Bot) aos 10´, Mendonça (Bot) aos 19´ e Serginho (SPa) aos 44´; 2º tempo: Éverton (SPa) aos 21´ e Éverton (SPa) aos 32´.

São Paulo: Waldir Peres; Getúlio, Oscar, Darío pereyra e Marinho Chagas; Almir, Heriberto (Éverton) e Renato (Assis); Paulo César, Serginho e Zé Sérgio. Técnico Carlos Alberto Silva

Botafogo: Paulo Sérgio; Perivaldo, Gaúcho, Zé Eduardo e Gaúcho Lima; Rocha, Ademir Lobo e Mendonça (Gilmar); Ziza (Édson), Marcelo e Jérson. Técnico: Paulinho de Almeida.

*http://portoroberto.blog.uol.com.br/arch2008-08-10_2008-08-16.html
** Programa Jogos para Sempre – Canal SporTV

domingo, 24 de maio de 2009

Grandes Clássicos - São Paulo x Palmeiras 1971

Grandes Clássicos - São Paulo x Palmeiras 1971

Olá amigos do FUTEBOLA!

O Brasileirão ainda não começou a pegar fogo, até por causa da Copa do Brasil e da Libertadores, porém, clássico é clássico e neste domingo teremos São Paulo x Palmeiras. Se hoje os dois times são fortes, em 1971 eles eram verdadeiras Seleções numa época em que o nosso futebol era o maior do planeta. Neste ano, o Verdão e o Tricolor decidiram o Paulistão em uma final emocionante que agora lhes conto como foi.

No início da década de 1970, não seria nenhum exagero afirmar que os maiores jogadores do mundo se encontravam em São Paulo. Só para citar exemplos pontuais, tínhamos Pelé (Santos), Rivelino (Corinthians), Gérson (São Paulo) e Ademir da Guia (Palmeiras). Com exceção do alvi-verde Ademir, o que por sinal muitos consideram sua ausência na Seleção uma grande injustiça, os outro craques haviam sido pilares da conquista do Brasil na Copa do Mundo de 1970. Não só o futebol paulista, mas o brasileiro em geral, estava vivendo sua época de ouro. Grandes craques internacionais como os zagueiros Ancheta, uruguaio, e Figueroa, chileno, dois dos melhores em suas posições, optaram por vir jogar no Brasil, respectivamente no Grêmio e Internacional, tamanho alto nível do nosso futebol. Se aproveitando desta época gloriosa, onde em nossos gramados se jogava o melhor futebol do mundo, o São Paulo foi em busca de uma contratação qua abalaria o futebol brasileiro.

Na década de 60, o Peñarol era sem sombras de dúvidas um dos maiores times do planeta. A equipe uruguaia havia conquistado a Taça Libertadores em 1960, 1961 e 1966, sendo que após as duas últimas, também conquistou o Mundial de Clubes. Some a estas conquistas continentais, nada menos do que 7 Campeonatos Uruguaios e está colocada em números a força do Peñarol. Um dos maiores jogadores uruguaios, talvez o maior, nesta época, era o meia Pedro Rocha, que em 1970 disputou sua terceira Copa do Mundo. Todos os apreciadores do bom futebol esperavam muito de Pedro Rocha na Copa do México, porém uma contusão, logo na estréia, não os permitiu ver toda a magia do uruguaio. Para se ter uma idéia da qualidade de Pedro Rocha, no final da década de 60, mais exatamente em 1968, a FIFA convocou uma Seleção com os melhores jogadores do mundo e ele estava presente. Juntamente com a convocação, veio uma lista de Pelé com os cinco maiores jogadores do mundo na opinião do rei e Pedro Rocha também estava nela. Pois é, foi este craque que o São Paulo foi buscar para fortalecer a equipe na busca pelo Bi-Campeonato Paulista, em 1971.

Reza a lenda, que Pedro Rocha demorou a se adaptar ao futebol brasileiro por ser boicotado pelos seus companheiros de time. O São Paulo contava com muitos cobras, o que poderia ter gerado um certo ciúme do uruguaio, e um outro ponto de insatisfação teria sido a mudança na organização da equipe, já que Pedro Rocha jogava na mesma posição de Gérson. O “Canhotinha de Ouro” já era um jogador consagrado no Brasil e, logo após sua chegada ao São Paulo, ele ajudou a equipe a sair de um jejum de 13 anos sem o título paulista, com o título estadual de 1970, se tornando um grande ídolo tricolor. Um outro fator que também desestabilizou a cabeça dos atletas são-paulinos, foi um problema cardíaco que atingiu o líder da equipe Roberto Dias. Maior jogador tricolor na sofrida década de 60, onde todos os esforços da diretoria eram investidos na construção do Morumbi, o zagueiro Roberto era um verdadeiro símbolo do São Paulo, que agora não poderia mais estar nos campos. Porém, com o tempo e a competência do lendário treinador Osvaldo Brandão, para a felicidade dos torcedores tricolores, Pedro Rocha conseguiu se encaixar com seus companheiros e com o sistema da equipe. A primeira mostra da genialidade do uruguaio veio na 4ª rodada do Paulistão de 1971. O São Paulo iria enfrentar o Palmeiras, que havia vencido os seus três primeiros jogos da competição, logo após ser derrotado pela Portuguesa. Um novo revés poderia ser o início de um período ruim para o Tricolor e, para assustar mais ainda, o Palmeiras saiu na frente na partida. Foi aí que Pedro Rocha começou a entrar para a galeria de ídolos do São Paulo, ao marcar os dois gols da virada e evitar que o Palmeiras disparasse na ponta da tabela.

Esta vitória se tornou ainda mais importante com o desenrolar do torneio, que a cada rodada que passava mostrava que a briga pelo título seria mesmo entre Palmeiras e São Paulo. Impressionante que estes dois times tenham mantido um rendimento tão alto, retirando o Santos de Pelé e o Corinthians de Rivelino da disputa pelo caneco. Assim como o São Paulo, o Palmeiras era uma equipe sensacional. Do goleiro ao ponta-esquerda, o Verdão possuía uma penca de craques: o grande e seguro goleiro Leão, o técnico e raçudo zagueiro Luís Pereira, o guerreiro clássico Dudu e o rápido e mortal Leivinha. Todas as estrelas girando ao redor do sol alvi-verde, chamado de Ademir da Guia.

O “Divino”, como era conhecido Ademir, era um daqueles jogadores geniais dentro e fora de campo. Mesmo sua aparência tímida e tranquila não o impedia de liderar uma equipe recheada de craques, pois todos os jogadores viam o exemplo de atleta que era. Jogador de técnica rara, até mesmo para os padrões da época, era Ademir quem fazia o Palmeiras jogar. Com passes e lançamentos precisos e preciosos, Ademir possuía a incrível capacidade de iniciar uma jogada e ele mesmo concuí-la. Um fato interessante de se perceber é que, neste início dos anos 70, muitas equipes brasileiras começavam a se organizar em campo com um atacante mais recuado, ficando com três homens na linha de meio-campo. Um exemplo disto era o próprio São Paulo, com um trio formado por Édson/Gérson/Pedro Rocha que para muitos é o maior meio-de-campo da história tricolor. O Palmeiras, entretanto, permanecia com seus 4 atacantes e Dudu e Ademir tomando conta do meio. Dudu defendia contando com a ajuda de Ademir e Ademir atacava contando com a ajuda de Dudu. Talvez somente Pelé e Coutinho, no início dos anos 60, se entendessem tão bem quanto a dupla de meias do Verdão.

Como havia citado anteriormente, com o caminhar do 1º turno, a briga pelo título foi se polarizando entre São Paulo e Palmeiras. A última rodada deste turno foi simplesmente espetacular. Palmeiras e São Paulo encontravam-se empatados na tabela de classificação. Os jogos seriam Palmeiras x Corinthians e Guarani x São Paulo. Enquanto o Palmeiras abria 2 a 0 no Timão, com 8 minutos de jogo, o Canhotinha Gérson era expulso no jogo em Campinas. O torcedor tricolor não teve como não se desesperar. Porém, o incrível aconteceu. Em uma das maiores viradas do futebol brasileiro, o Corinthians bateu o Palmeiras por 4 a 3 e o Tricolor venceu heroicamente o Bugre por 1 a 0. Mantendo o ritmo do 1º turno, São Paulo e Palmeiras não deram chances aos seus rivais e chegaram a última rodada do torneio com apenas 1 ponto os separando. Este ponto a mais pertencia ao São Paulo que teria a vantagem de empatar a partida derradeira contra o... Palmeiras. Isso mesmo. O título de Campeão Paulista de 1971 seria decidido em um único jogo. Leão, Luís Pereira, Dudu, Gérson, Pedro Rocha, Ademir da Guia, Leivinha, Toninho Guerreiro... Em nenhum lugar do mundo se jogava um futebol como o que iria se jogar no Morumbi naquela tarde de junho de 1971.

Não é necessário falar que a cidade de São Paulo parou no dia 27 de junho. O público presente no Morumbi ultrapassava 110 mil torcedores e, tenho certeza, nenhum deles saiu do estádio com as unhas inteiras. O jogo foi de uma intensidade comum as grandes decisões e tudo podia se esperar desde o primeiro ao último minuto. Logo no início da partida, 5 minutos após o apito do árbitro Armando Marques, o zagueiro alvi-verde Minuca escorou mal um cruzamento do ponta tricolor Paraná e a bola sobrou nos pés de Toninho Guerreiro. Não tinha outra alternativa para a pelota a não ser parar no fundo da rede. A grandiosidade de craques produzidos no nosso país, faz com que alguns deles recebam menos méritos do que merecem e Toninho Guerreiro é um exemplo deste caso. No final da década de 60, Toninho fazia parte do segundo esquadrão do Santos que foi Tri-Campeão em 67/68/69 e marcou quase 300 gols pelo Peixe, se sagrando ainda artilheiro do Paulistão de 1966. Após ser contratado pelo São Paulo, logo no primeiro Campeonato Paulista disputado, em 1970, também terminou no topo da artilharia sendo muito importante na conquista tricolor. Agora, nesta decisão contra o Palmeiras, Toninho escrevia mais uma página de sua gloriosa história ao marcar este gol logo aos 5 minutos de jogo.

Após o gol sofrido, o Palmeiras acusou o golpe. Mesmo precisando somente do empate para levantar a taça, o São Paulo, percebendo que o Verdão estava abalado, partiu para cima e levou muito perigo à meta defendida por Leão. Os meias tricolores, e até Toninho Guerreiro, exploravam a velocidade dos pontas Paraná ,“um trator pela ponta-esquerda”*, e Terto que “era um foguete”*. Até o fim da 1ª etapa, o jogo permaneceu desta maneira. O São Paulo pressionando e o Palmeiras pouco conseguindo produzir. Manter a postura seria o ideal para o Tricolor no 2º tempo, mas não foi o que ocorreu. Talvez por relaxamento, talvez por cansaço, o São Paulo decidiu recuar e, claro, o Palmeiras foi pra cima. Aos 22 minutos, o lance que entraria para a história. Em um dos lances em que a equipe alvi-verde abafava o São Paulo, a bola sobra na direita para o lateral Eurico que cruza na cabeça de Leivinha. Exímio cabeceador, Leivinha escora a bola para o fundo das redes. Era o gol da esperança palmeirense. Com mais de 20 minutos de jogo pela frente, seria difícil o Tricolor segurar o forte ataque verde. Porém, Armando Marques anulou o gol por acreditar ter sido marcado com a mão. Até hoje, os jogadores do Verdão que estavam em campo reclamam deste lance. Os torcedores então, afirmam que se o gol tivesse sido validado, a taça seria do Palmeiras. O fato é que após o gol anulado, o Verdão perdeu o controle do jogo e dos nervos, como ilustram as expulsões de Eurico e Fedato, e não teve força para buscar a virada.

O apito final colocou na história um dos maiores times que o São Paulo já possuiu, consagrando um trio de meias, Édson, Gérson e Pedro Rocha, que quem viu nunca vai esquecer. Quem também entrou para a história com esta conquista, foi Toninho Guerreiro. Após o Tri paulista de 67/68/69, com o Santos, Toninho agora era bi com o São Paulo, conseguindo a façanha de vencer 5 Campeonatos Paulistas seguidos, sendo o único, até hoje, a conseguir este feito.

São Paulo 1 x 0 Palmeiras

27 de junho de 1971

Morumbi – Público: 103887 pagantes

Gol: Toninho Guerreiro (SPa) aos 5´ do 1º tempo

São Paulo: Sérgio; Forlan, Jurandir, Arlindo e Gilberto Sorriso; Édson, Gérson e Pedro Rocha (Carlos Alberto); Terto, Toninho Guerreiro e Paraná. Técnico: Osvaldo Brandão

Palmeiras: Leão; Eurico, Luís Pereira, Minuca e Dé; Dudu e Ademir da Guia; Edu, Leivinha, César e Pio (Fedato). Técnico: Mário Travaglini.

*Mini-Enciclopédia do Futebol Brasileiro – Lance!

domingo, 19 de abril de 2009

Grandes Clássicos - Botafogo x Flamengo 1989

Grandes Clássicos - Botafogo x Flamengo 1989

Olá amigos do FUTEBOLA!

Chegamos à final da Taça Rio e, caso o Botafogo vença o Flamengo, será considerado Campeão Estadual ao apito final deste jogo. Com certeza o Maracanã estará lotado e uma festa, assim como em 1989 quando estes dois times chegaram à decisão do Carioca. Mas naquele ano, existia um agravante. O Fogão não conquistava um título havia mais de duas décadas. Divirtam-se recordando ou conhecendo, esta grande história do nosso futebol.

O Campeonato Carioca de 1989 se iniciava, devido às edições anteriores, com dois favoritos. Os últimos 3 torneios haviam sido decididos por Flamengo e Vasco, sendo o rubro-negro campeão em 1986 e o cruzmaltino Bi-campeão em 1987/1988. Para a última competição estadual da década de 80, tudo parecia caminhar para a mesma direção.

O Flamengo contava em seu elenco com jogadores que seriam importantes para o Brasil conquistar o mundo. Isso mesmo! Na Copa do Mundo de 1994, o Brasil estreou contra a Rússia contando com Jorginho, Aldair, Leonardo, Zinho e Bebeto, todos eles atletas rubro-negros que disputariam o Carioca de 1989. Eram atletas maduros o suficiente para vestirem a camisa do Flamengo sem sentir o peso. Todos eles haviam participado da campanha em que o Flamengo conquistou a Copa União de 1987 e Bebeto, inclusive, marcara o gol do título, na final contra o Internacional. Em 1989 Bebeto já era um dos maiores jogadores do país, constantemente convocado para a Seleção Brasileira. Era um jogador com inúmeras qualidades ofensivas, sendo quase impossível destacar sua maior virtude. Veloz, habilidoso, técnico e letal, fazia qualquer zagueiro perder o sono nas vésperas de enfrentá-lo. Também não podemos esquecer quem ainda era o camisa 10 da Gávea. Mesmo tendo sofrido uma série de contusões desde seu retorno do futebol italiano em 1985, Zico era peça essencial desta engrenagem rubro-negra. Era ele quem explorava a capacidade ofensiva dos laterais Leonardo e Jorginho, quem cobrava com perfeição as faltas sofridas por Bebeto, quem municiava os impetuosos Zinho e Alcindo, quem ditava o ritmo do jogo e, o mais óbvio, quem fazia o adversário tremer. E tem mais! O treinador que comandava esse time de craques era ninguém menos do que Telê Santana, que sabia extrair cada gota de ofensividade dos seus jogadores.

O Vasco também possuía uma ótima equipe que buscava nada menos que o título de Tri-campeão. O confiável goleiro Acácio, os excelentes laterais Paulo Roberto e Mazinho, o seguro volante Zé do Carmo e o meia, que era a classe em pessoa, Geovanni, eram exemplos da força vascaína. Ao longo da Taça Guanabara, porém, o Vasco mostraria pouca inspiração ofensiva, talvez sentindo falta de Romário, recém-negociado com o PSV da Holanda, deixando o Flamengo conquistar o título do turno e terminando apenas na 3ª colocação. Quem, na realidade, foi a sombra do time da Gávea em toda a Taça Guanabara foi o Botafogo.

O Glorioso estava vivendo um momento delicadíssimo em sua história. Desde 1968 o clube não conquistava um único título (com exceção de turnos estaduais). Eram mais de 20 anos sem levantar um troféu, mas durante este período o alvi-negro chegou perto várias vezes. Em 1971, o Botafogo era um verdadeiro esquadrão que contava com Brito, Carlos Alberto Torres, Jairzinho e Paulo César Caju e perdeu a final do Carioca para o Fluminense, com um gol aos 43 minutos do 2º tempo. Em 1976 o Fogão chegou a se classificar para o quadrangular final do Estadual, com os craques Marinho Chagas e Mário Sérgio, mas não segurou a força da “Máquina Tricolor”. Já contando em seu elenco com o genial meia Mendonça, o alvi-negro terminou o Brasileiro de 1977 em 5º lugar, sem perder um único jogo, e em 1981, foi eliminado pelo São Paulo na semi-final do torneio nacional, após estar vencendo a partida por 2 a 0.

Agora que conhecemos o momento vivido pelo Botafogo em 1989, vamos entender como o elenco para a disputa do torneio foi montado. Em 1986, Emil Pinheiro, que era um, digamos, “empresário” do jogo do bicho, assumiu um cargo importante da diretoria botafoguense e iniciou uma série de investimentos para fortalecer a equipe alvi-negra. Uma história lendária que ocorreu com Seu Emil, como era carinhosamente chamado, foi envolvendo o então presidente de honra do Bangu, Castor de Andrade, “empresário” do mesmo ramo. A lenda diz que, em 1988, Castor estava necessitando de dinheiro. Foi então que Emil ofereceu nada menos que 400 mil dólares por Marinho, Mauro Galvão e Paulinho Criciúma, os três destaques do forte time do Bangu. A negociação foi concretizada em uma boate com capangas presentes por todos os cantos e Castor de Andrade havia levado até uma máquina de contar dinheiro. Não se sabe se a história é verdadeira, mas o fato é que o trio do Bangu realmente foi atuar no Botafogo.

O extraordinário ponta Marinho, que em 1985 recebera o prêmio Bola de Ouro (dado pela revista Placar ao melhor jogador do Campeonato Brasileiro naquele ano), nunca mais conseguiu reeditar suas memoráveis atuações após a dramática morte de seu pequeno filho, afogado em sua própria piscina, no ano de 1988, e rapidamente retornou ao Bangu. Já Mauro Galvão e Paulinho Criciúma seriam os pilares da equipe botafoguense em 1989. Mauro Galvão conhecia o gostinho de conquistar títulos, afinal havia sido Campeão Brasileiro, invicto, em 1979, e Tetra-campeão Gaúcho (81/82/83/84) pelo Internacional. Era um zagueiro diferenciado, de extrema categoria, e que sempre saía para o jogo com qualidade. Já Paulinho Criciúma seria o líder técnico que o Botafogo teria em campo. Ao mesmo tempo em que armava ótimas jogadas ofensivas, possuía uma grande capacidade de finalização (era excelente cabeceador). Seus dotes ofensivos não o impediam de se entregar em campo para ajudar a equipe na marcação, o que o fez um espelho para os seus companheiros. Pode-se falar também que, tanto Mauro Galvão, quanto Paulinho Criciúma, encontraram os parceiros ideais no Botafogo.

Sempre que Mauro Galvão partia para uma arrancada ofensiva, podia ir tranquilo pois sabia que a defesa estaria entregue em boas mãos com Wilson Gottardo a protegendo. Zagueiro imponente, Gottardo possuía como principais características um vigor físico impressionante e grande capacidade de liderança. No campo ofensivo, bastava Paulinho Criciúma olhar para o lado direito que sempre encontraria seu parceiro Maurício esperando uma bola para usufruir de sua grande agilidade e velocidade. Para comandar o alvi-negro no Carioca de 1989, chegou o Campeão Mundial Interclubes de 1983, com o Grêmio, Valdyir Espinosa. Espinosa soube armar uma equipe com solidez e homogeneidade impressionantes e cada jogador sabia, exatamente, o seu papel dentro das quatro linhas. Mauro Galvão, como citado anteriomente, podia tranquilamente participar de jogadas ofensivas, que a defesa não ficaria desguarnecida. Os laterais adversários sempre eram muito bem marcados pelos pontas alvi-negros Maurício e Gustavo (reparem que até hoje em dia, 20 anos após esta equipe ser formada, esta tática de pontas marcadores causa um certo espanto). Nenhum “camisa 10” adversário teria vida fácil frente aos cães de guarda Luisinho e Carlos Alberto. E a principal qualidade tática da equipe era saber jogar, muito bem, nos contra-ataques.

O Flamengo havia conquisado a Taça Guanabara de maneira invicta, mostrando um poder ofensivo monstruoso (30 gols marcados em 11 jogos). Se o primeiro turno serviu para garantir o time de Zico e Bebeto na final do Estadual, encheu o torcedor botafoguense de esperança, afinal a equipe terminara a Taça Guanabara também de maneira invicta e, se não teve um ataque tão avassalador quanto o rubro-negro, sua defesa sofreu apenas 3 gols. As fichas do Botafogo seriam jogadas na Taça Rio, o 2º turno, que também valia uma vaga na final da competição. Logo na terceira rodada da Taça Rio, o Fogão deu mostras de que brigaria com toda sua força pelo título, no duelo contra o Flamengo. O rubro-negro vencia por 3 a 1 até os 36 minutos do 2º tempo, quando o seu jovem zagueiro Gonçalves (aquele mesmo que mais tarde faria história no Botafogo) marcou um golaço contra, ao encobrir o goleiro Zé Carlos. Mesmo faltando pouco tempo para o final e com os jogadores cansados pelo estado encharcado do gramado, o Botafogo não desistiu e, após lindo lançamento de Mauro Galvão, Vítor, aos 42 minutos, decretou o empate em 3 a 3. A equipe do Botafogo seguiu seu caminho, até a última rodada, vencendo os times considerados pequenos e empatando com Vasco e Fluminense. Na rodada derradeira, um tropeço ao empatar em 0 a 0 com o Bangu poderia ter tirado o título da Taça Rio do Botafogo, porém o Vasco venceu o Flamengo e impediu que o rubro-negro conquistasse o título de maneira antecipada, por levar os dois turnos.

O torneio, então, seria decidido por Flamengo, vencedor da Taça Guanabara, e Botafogo, vencedor da Taça Rio, em uma melhor de quatro pontos (na época a vitória valia 2 pontos) e, por ter melhor campanha total, o alvi-negro entrou na decisão com 1 ponto de vantagem. O primeiro jogo decisivo terminaria empatado sem gols, com Zico muito bem marcado por Luisinho e Paulinho Criciúma com a pontaria fora do eixo. O empate aproximou ainda mais o Botafogo de um título que não conquistava havia 21 anos, pois agora bastaria ao Fogão uma vitória no jogo seguinte. E esse era o maior problema do alvi-negro: vencer um clássico. Desde 1986 o Botafogo não vencia um dos seus tradicionais rivais cariocas e, neste Estadual, havia obtido 7 empates em 7 jogos. Será que chegava a hora do fim do jejum? Ou melhor, chegava a hora do fim dos jejuns?

No dia 10 de junho de 1989 o Maracanã estava lotado e era possível se observar um fato curioso. Este era um dos raros dias em que a torcida do Flamengo não estava em maior número, numa decisão envolvendo o time. Os botafoguenses, loucos por um título, faziam uma festa maravilhosa no “Maior do Mundo” e passavam toda a confiança para sua equipe. A entrada dos times no gramado, quase que simultaneamente, fez o estádio ganhar vida. Bandeiras tremulavam, o barulho dos fogos era canção no ouvido dos torcedores e papéis voando completavam o cenário espetacular que precedia a decisão. Com o apito inicial, pôde-se ver um jogo pegado no meio-de-campo, com o Botafogo tendo armado uma verdadeira muralha na sua intermediária. A partida foi assim, morna, até os 15 minutos, quando o Flamengo teve uma falta nas proximidades da área alvi-negra. Zico pegou a bola para cobrança e corações aceleraram, porém o tiro foi fraco e o goleiro Ricardo Cruz defendeu facilmente. Esse lance poderia ser o primeiro de muitas oportunidades de gols, mas não foi o que ocorreu. Com exceção de um bom contra-ataque botafoguense, após bela roubada de bola do experiente lateral-direito Josimar, e um chute para fora do rubro-negro Alcindo, o jogo continuou fechado no meio-campo. Era o claro duelo entre a técnica flamenguista, que tentava abrir espaços com a qualidade dos passes, e a força alvi-negra, que bloqueava qualquer caminho que levasse à Ricardo Cruz. Aos 37 minutos, mesmo com tudo fechado, o Flamengo conseguiu uma grande chance de abrir o placar. O lateral-esquerdo Leonardo, vendo os espaços em sua frente interditados, cruzou da intermediária a bola para Bebeto que, mesmo marcado, conseguiu cabecear para monumental defesa de Ricardo Cruz. O jogo caminhava para o intervalo, quando o destino resolveu dar as caras. O ponta Gustavo contundido foi substituído por Mazolinha. Por falar em ponta, um fato envolvendo o outro ponta botafoguense, Maurício, viria a tona posteriormente. Maurício havia passado toda a manhã do jogo com muita febre e chegara a pedir para não ser relacionado, porém os próprios jogadores o fizeram mudar de idéia. Muito sumido em campo durante o 1º tempo, também pela falta de ofensividade de sua equipe, Maurício falou para o treinador Espinosa, no intervalo, que sentia estar prejudicando o time e queria sair. Espinosa respondeu que tiraria qualquer um de campo, menos Maurício, já que havia sonhado que este seria o autor do gol do título.

O Botafogo voltaria para o 2º tempo com Mazolinha e Maurício em campo, porém o fato que animou a torcida alvi-negra foi o gesto de Zico pedindo substituição. Antes de sair, o Galinho ainda fez muitos torcedores prenderem a respiração ao cobrar uma falta que passou raspando a meta de Ricardo Cruz. Não foram poucos os suspiros de alívio após ser concretizada a saída de Zico para a entrada de Marquinhos. E este alívio botafoguense não duraria nem 1 minuto e já seria transformado em euforia. Aos 12 minutos do 2º tempo, a jogada que entraria para a história do futebol carioca. Mazolinha recebe passe na esquerda e arranca para cima de Jorginho. Antes de alcançar a linha de fundo, a bola é cruzada na direção de Maurício que, com um leve empurrão, desloca a marcação de Leonardo e estica a perna para mandar a bola pro fundo das redes. Era dia 21. O termômetro do Maracanã apontava 21 graus. O gol ocorreu aos 12 minutos (21 ao contrário). O passe foi do número 14 Mazolinha e o gol do número 7 Maurício (14 + 7 = 21). O cruzamento foi o 21º realizado durante o jogo. E tudo isto pôs fim ao jejum de 21 anos sem títulos do Botafogo. Dá pra entender por que os botafoguenses são tão supersticiosos, né?

Após o histórico gol de Maurício, o Flamengo não teve forças para buscar o empate. Talvez pela ausência de Zico, talvez pelo fato de a torcida do Fogão parecer ter entrado dentro de campo, o fato é que o alvi-negro criou mais chances de ampliar, do que o Flamengo de empatar o placar. Na mais perigosa chance criada pelo Botafogo, Maurício tocou para Paulinho Criciúma no meio-campo, que lhe devolveu a bola em profundidade na ponta-direita. O número 7, fazendo jus à camisa de Garrincha que vestia, entortou dois marcadores e cruzou a bola com perfeição na cabeça de Paulinho Criciúma, que caprichadamente mandou a pelota no travessão. Realmente estes dois se davam muito bem. A torcida alvi-negra que não parava de gritar desde o gol marcado, arrumou uma maneira de fazer ainda mais barulho após o apito final do árbitro. Fim de jogo. A alegria que envolvia torcedores, jogadores, técnico, diretores, e todos os botafoguenses pelo país, era algo indescritível. No biênio 1967/1968, o Botafogo foi Bi-campeão Carioca contando com um dos maiores times do mundo. Nesta época, milhões de crianças e jovens decidiram bordar em seus corações, uma estrela solitária. Crianças viraram jovens sem comemorar um título. Jovens viraram adultou sem nunca gritar "É Campeão!". Foram mais de duas décadas que esta estrela, em cada coração alvi-negro, deixou de brilhar, mas após o gol de Maurício, todos se lembraram o imenso prazer de ser Botafogo.

Botafogo 1 x 0 Flamengo

21 de junho de 1989

Maracanã – Público: 56412 pagantes

Gol: 2º tempo: Maurício (Bot) aos 12´.

Botafogo: Ricardo Cruz; Josimar, Wilson Gottardo, Mauro Galvão e Marquinhos;
Carlos Alberto Santos, Luisinho e Vítor; Maurício, Paulinho Criciúma e Gustavo (Mazolinha). Técnico: Valdyr Espinosa.

Flamengo: Zé Carlos; Jorginho, Aldair, Zé Carlos Nascimento e Leonardo; Aílton, Renato Carioca e Zico (Marquinhos); Alcindo (Sérgio Araújo), Bebeto e Zinho. Técnico: Telê Santana.

sábado, 11 de abril de 2009

Grandes Clássicos - Vasco x Botafogo 1970

Grandes Clássicos - Vasco x Botafogo 1970

Olá, amigos leitores do FUTEBOLA!

Neste sábado, Botafogo e Vasco se enfrentam pela semi-final da Taça Rio em um duelo onde ambos possuem chances de conquistar o título. Em 1970, ano em que o futebol brasileiro esteve em festa, o fato foi diferente. O clássico foi disputado com um dos times querendo se sagrar campeão e o outro colocar água no chopp do rival. É sobre esta empolgante disputa que o Grandes Clássicos de hoje vai falar.

O Campeonato Carioca de 1970 se iniciou no final de junho, em pleno carnaval. Calma lá! Carnaval em junho? Isso mesmo, não fiquei maluco. No dia 27 de junho, Bangu e Portuguesa entravam em campo para dar início ao torneio estadual menos de uma semana após o Brasil se sagrar Tri-campeão Mundial, no México, ou seja, o Rio de Janeiro e todo o Brasil estavam em festa. Se hoje em dia nós nos acostumamos a ouvir a frase “o campeonato está nivelado por baixo”, em 1970 o Carioca que se iniciava também era nivelado, mas por alto. Muito alto. Nas nuvens.

Pelo Maracanã passariam jogadores da melhor qualidade e cinco times poderiam conquistar o certame naquele ano sem ninguém gritar: “Nossa! Que zebra!”. O Flamengo já havia conquistado dois títulos antes mesmo do Carioca se iniciar e contava com excelente equipe. As vitórias no Torneio Internacional de Verão (durante o qual aplicou uma sonora goleada de 6 a 1 no Independiente, da Argentina) e na Taça Guanabara (que ainda não valia pelo 1º turno do Campeonato Carioca) apontavam o Flamengo como um dos candidatos ao título. O maior destaque dos rubro-negros ficava por conta da dupla de gringos formada pelo clássico zagueiro paraguaio Reyes e o argentino ponta-direita, sinônimo de raça e perigo, Doval. Entre os dois, atuando pelo meio-campo, Zanata mostrava toda sua categoria. Já a força do Botafogo era simples de se explicar, pois na linha de frente alvinegra encontraríamos Jairzinho e Paulo Cézar Caju. Jairzinho acabava de retornar da Copa do Mundo com o cartaz de ter marcado gols em todos os jogos da campanha que nos deu o título. Esta mesma Copa do Mundo serve para ilustrar a qualidade de Paulo Cézar. Na duríssima vitória contra a Inglaterra por 1 a 0, o Caju foi titular e considerado por muitos cronistas como o melhor homem em campo, possuindo apenas com 20 anos de idade. Um time que contasse com esses dois atacantes seria favorito a qualquer conquista.

E o campeão do Carioca de 1969? Havia mantido a mesma base? Sim, o Fluminense apostava suas fichas, para o Carioca de 1970, na base que levantara o toféu um ano antes. E o tricolor tinha um timaço, que já começava com o goleiro Tri-campeão do Mundo, Félix. Do goleiro Félix até o valente ponta-esquerda Lula, o Fluzão passava por craques como o ofensivo e incisivo lateral-esquerdo Marco Antônio (também Campeão do Mundo no México), o volante Denílson, que devia ter a palavra “segurança” integrada em seu nome, tamanha proteção que dava à defesa tricolor, e o centroavante Flávio, que chegara do Corinthians com mais de 150 gols marcados e em seu primeiro Carioca disputado pelo Flu, em 1969, já havia sido o artilheiro. Ainda tinha mais cachorro grande na briga. O América contava com uma das maiores equipes de sua história. O time rubro mostrava sua força até na sala da presidência, com Giulite Coutinho no comando do clube. Dentro de campo, era Edu Coimbra que encantava as arquibancadas. O baixinho Edu tinha um futebol gigantesco, onde se encontravam lindos dribles, preciosos passes e chutes perfeitos. O Ameriquinha ainda contava com dois jogadores que fariam história após sair do clube, o ponta Tarciso e o volante Badeco. Tarciso atuaria por treze anos no Grêmio, sendo um dos principais expoentes da gloriosa fase que o clube viveu entre os anos 77 e 83. Já Badeco faria história nos cinco anos em que atuaria na Portuguesa (SP), conquistando o Paulista de 1973 junto com o Santos (o árbitro Armando Marques se equivocou na contagem da disputa dos pênaltis e, após muita confusão, o título foi dividido).

Para completar a lista dos possíveis candidatos ao título, falemos do Vasco da Gama. O clube cruz-maltino não vivia uma situação, digamos, confortável, antes do início do torneio. Talvez o único torcedor que comemorava a conquista da Copa do Mundo pelo Brasil, com uma pulga atrás da orelha fosse o vascaíno. O motivo? Desde 1958 o Vasco não vencia um Campeonato Carioca. Para acabar com o jejum, o “Gigante da Colina” se sustentou em três pilares. Neste momento difícil que vivia a equipe, os jogadores precisavam, e muito, de fé. Essa fé, essa confiança, foi encontrada no massagista Eduardo Santana, conhecido por todos como Pai Santana. Além de fazer seu papel de massagista, cuidando dos jogadores, Pai Santana era também “Conselheiro Religioso”, sempre ajudando o clube e os jogadores com suas palavras e mandingas. Outro pilar que mantinha a base do Vasco forte era o treinador Elba de Pádua Lima. Conhecido simplesmente por Tim, o técnico vascaíno sabia tudo sobre futebol e era um estrategista de primeira. Podendo contar com jogadores experientes, Tim montou um time sólido e muito eficiente. O goleiro argentino Andrada, que será para sempre lembrado por ter sofrido o milésimo gol de Pelé mesmo sendo um grande arqueiro, o lateral-direito Fidélis, que em 1966 havia conquistado o Carioca com o Bangu e participado do grupo que defendeu o Brasil na Copa do Mundo, e o portentoso líder Alcir Portela, um verdeiro ícone do Vasco, eram exemplos da experiência vascaína.

O terceiro ponto de sustentação da equipe vascaína se encontrava dentro de campo. O ponta-de-lança Silva havia retornado ao Brasil após excelente passagem pelo Racing da Argentina, onde se sagrou artilheiro do Campeonato Nacional e ídolo do clube. Silva era um homem de frente quase completo, pois a mesma facilidade que possuía para marcar gols, era um exímio cabeceador, mostrava para organizar jogadas ofensivas. Essa capacidade de comandar o time em campo lhe rendeu o apelido de “Batuta”, devido ao instrumento usado pelo maestro para reger uma orquestra, apesar de alguns dizerem que o chamavam assim por ser um cara legal, gente fina, batuta.

O campeonato seria disputado em dois turnos. No primeiro, 12 clubes se enfrentariam em jogo único, com os 8 melhores passando para o turno seguinte. No 2º turno, os oito classificados novamente se enfrentariam em partida única e, ao final dos duelos, quem somasse mais pontos totais (1º e 2º turnos) seria o campeão. No turno inicial, o equilíbrio, como era esperado, prevaleceu. Flávio não se cansava de fazer gols, Edu era um espetáculo à parte e Silva mostrava que o período na Argentina só lhe fizera bem. Ao final das 11 rodadas, o Fluminense havia se sagrado Campeão do 1º turno com 18 pontos (na época a vitória valia 2 pontos), porém América e Vasco vieram logo atrás com 17.

Com o início do 2º turno, a história foi se modificando e o equilibrio desaparecendo. Um a um os adversários foram sucumbindo à fé, à força e à categoria do Vasco. Enquanto o Fluminense tropeçava ao empatar com o Olaria e o América levava uma goleada de 4 a 0 do Flamengo, o Vasco emplacava uma sequência de 5 vitórias seguidas. Nesta sequência de vitórias, foram 13 gols marcados e apenas 3 sofridos. O título estava próximo. Na penúltima rodada do 2º turno, o adversário do cruz-maltino, que em caso de vitória levaria o troféu por antecipação, seria o Botafogo. O Fogão contava com toda a torcida tricolor, já que o Fluminense era o único time em condições matemáticas de tirar a taça do caminho de São Januário. O fato é que, com ou sem apoio da torcida do Fluminense, os botafoguenses não queriam deixar o Vasco dar a volta olímpica diante dos seus olhos. Se o Vasco quer ser campeão, que seja na última rodada, diziam os torcedores do Glorioso.

Confiantes no fim do jejum de títulos, os vascaínos foram em massa ao Maracanã no dia 17 de setembro. Eles acreditavam que o fim do sofrimento estava próximo, porém não comemoravam antes do tempo. A concentração era proporcional à confiança, e no vestiário da equipe cruz-maltina o sentimento era semelhante. Pai Santana, completamente trajado de branco, utilizava-se de velas, cachaça e sal grosso, buscando ajudar a equipe com seus “poderes”. A concentração dos jogadores no vestiário era quase palpável, e foi neste ritmo que o Vasco entrou em campo.

Com o apito inicial do juiz pôde-se ver um Vasco cauteloso, afinal o Botafogo jogava sem nenhuma preocupação com o resultado e isso deixava-o mais solto. O sistema defensivo do Vasco, porém, se comportou de maneira exemplar, inclusive o jovem goleiro Élcio, que tinha o privilégio e a responsabilidade de substituir o lendário Andrada e atuava pela primeira vez no Maracanã. Com o passar dos minutos o Vasco foi ganhando mais corpo e tomou as rédeas da partida. Foi neste período, aos 32 minutos do 1º tempo, para ser mais exato, que o craque Silva fez bela jogada na entrada da área e sofreu falta. Gilson Nunes na bola, a barreira armada, o goleiro botafoguense Ubirajara posicionado e... Golaço do Vasco! O estufar das redes fez explodir a galera cruzmaltina nas arquibancadas e Gilson Nunes no campo, pois ele era vascaíno de coração e sentia que o fim do jejum estava próximo.

O jogo foi para o intervalo com o Vasco vencendo por 1 a 0 e sua torcida cantando sem parar. Mas não se escutava ainda os gritos de “É campeão!!! É campeão!!!”, pois o placar estava apertado e o Botafogo não era um adversário qualquer. Na 2ª etapa, o técnico Tim deu mais uma prova do quanto entendia de futebol. Se um time que precisa da vitória para se sagrar campeão abre o placar, com raras exceções, ele adota a perigosa estratégia de recuar e jogar nos contra-ataques. Pois Tim não deixou sua equipe fazer isso e mandou-a continuar atacando para decidir o jogo. Foi assim que, aos 13 minutos, após mais uma jogada de Silva, o atacante Valfrido chutou para o gol e, antes de a bola sacudir o filó, a bola ainda desviou no meio do caminho, enganando o goleiro Ubirajara. Agora estava 2 a 0 Vasco e o troféu muito perto de São Januário.

Com a vantagem de dois gols no marcador, o Vasco, aí sim, decidiu tocar a bola e segurar o jogo. O tempo passando, a galera gritando e o sofrimento acabando. Ainda deu tempo de o Glorioso, com gol de Ferreti, diminuir o placar, mas a partida já estava fria o suficiente para o Botafogo tentar o empate. Ver a diferença diminuir não incomodou nem um pouco os vascaínos na arquibancada, que apenas esperavam o término da partida. Com o apito final, os gritos de “É campeão!!! É campeão!!!” foram, enfim, libertados. Foram quase 12 anos de espera por esse momento. O ídolo Silva erguido pelos torcedores que invadiram o campo e, mais tarde, após os jogadores já estarem nos vestíarios, Pai Santana acendendo velas no centro do gramado para agredecer pelo título são imagens que ficarão para sempre na memória de quem se sentiu mais livre após esse dia 17 de setembro.

Vasco 2 x 0 Botafogo

17 de setembro de 1970

Maracanã – Público: 59110 pagantes

Gols: 1º tempo: Gilson Nunes (Vas) aos 32´; Moisés (Bot), contra, aos 13´.

Vasco: Elcio; Fidélis, Moacir, Renê e Eberval; Alcir e Buglê; Luis Carlos (Ademir), Vafrido, Silva e Gilson Nunes

Botafogo: Ubirajara Motta; Moreira, Moisés, Leônidas e Waltencir (Botinha); Nei Conceição e Careca; Zequinha, Nílson Dias (Ferretti), Jairzinho e Paulo Cézar

domingo, 5 de abril de 2009

Grandes Clássicos - Flamengo x Fluminense 2004

Grandes Clássicos - Flamengo x Fluminense 2004

Olá amigos leitores do FUTEBOLA!

A última rodada da fase de grupos da Taça Rio vai ter a honra de contar com o clássico Fla-Flu. O Fluminense já entra em campo classificado, e o Flamengo só perde a vaga por uma fatalidade daquelas. Um jogo frio, certo? Errado. Muito errado. Só por disputarem um Fla-Flu, os jogadores já entram em campo com um friozinho na barriga. É talvez o clássico mais tradicional do futebol brasileiro. No ano de 2004, valendo o título da Taça Guanabara, Flamengo e Fluminense se enfrentaram em um jogaço de bola. Mais uma página foi incrivelmente escrita no livro de histórias do Fla-Flu.

Existem alguns torneios que já nascem fadados ao sucesso, e o Campeonato Carioca de 2004 foi um deles. O número pequeno de equipes (apenas 12, divididas em 2 grupos) fazia com que qualquer jogo fosse decisivo. A disputa da Taça Guanabara então, não podia ser mais carismática. Valendo pelo 1º turno do Estadual, os clubes se enfrentariam dentro de seus respectivos grupos (totalizando 5 jogos cada time), com os dois primeiros de cada grupo passando para a fase semi-final. Os jogos semi-finais e a final seriam únicos, sendo o jogo derradeiro disputado em pleno sábado de carnaval, com o Campeão da Taça Guanabara garantindo vaga na decisão do Estadual. Apesar de todos os benefícios do regulamento, a maior propaganda que podia ter o torneio foi o elenco que o Fluminense montou para a disputa.

Contando com o apoio financeiro da Unimed, o Fluminense conseguiu armar um time para a disputa do Carioca de 2004 que, de tanta espectativa gerada, chegou a ser chamado de “Os Galácticos” e “Nova Máquina Tricolor”. A empolgação era justificada pelo quarteto ofensivo do Fluzão. O principal articulador das jogadas seria o já conhecido, e ídolo da galera tricolor, Roger. Completamente identificado com o clube, Roger havia sido, ao lado do treinador Parreira, o maior símbolo da ressurreição do Fluminense, ao conquistar a 3ª divisão do Brasileiro, em 1999. Para ajudar Roger na organização das jogadas a equipe contaria com Ramón, um dos expoentes de um dos maiores períodos de glórias da história do Vasco, no final da década de 90. Dois armadores habilidosos, técnicos e categóricos, que teriam a missão de abastecer um ataque que ninguém imaginaria ser capaz de existir novamente. Os novos atacantes tricolores já haviam sido melhores amigos, daqueles inseparáveis e até cantaram funk juntos, mas por algum motivo brigaram, se afastaram, passaram a trocar farpas. Foi durante este período em que não se falavam que entrou o Fluminense na história e conseguiu juntá-los novamente. No Carioca de 2004, seria possível assistir Romário e Edmundo, uma vez mais, lado a lado.

Qual zagueiro conseguiria ter um sono tranquilo, sabendo que no dia seguinte teria que marcar a dupla Romário / Edmundo? Não existia. Todos sentiriam um frio na barriga só de pensar nesta árdua tarefa. Romário, apesar de quase 38 anos, ainda esperava mandar muitas bolas para o fundo das redes. Esta seria a sua segunda passagem pelo tricolor (havia atuado no clube em 2002 e 2003, quando foi negociado com o Qatar), e mesmo já tendo marcado muitos gols na primeira, não havia conquistado nenhum título. Ou seja, retornava para o Fluminense um Romário sedento por troféus. Já Edmundo queria provar que ainda era um grande jogador. Desde 2000, o “Animal”, como é conhecido, atuara por 6 diferentes clubes, sem conseguir destaque em nenhum deles. Sua chegada ao Fluminense enchia ele e a torcida tricolor de esperanças no retorno do seu estrondoso futebol.

Durante a fase de grupos, o Fluminense mostrou seu poder e, mesmo com as estrelas se contundindo constantemente, chegou a excelentes 15 gols marcados, 4 vitórias e apenas uma derrota. Mas não perdeu um jogo qualquer, perdeu um clássico. E não era um clássico qualquer, era um Fla-Flu. E não era um Fla-Flu qualquer, mas um em que o Fluminense abriu 3 a 1 com uma atuação espetacular de Romário, e o Flamengo conseguiu vencer por 4 a 3. Se o Flamengo fez uma fase de grupos cambaleante, esse clássico mostrou um lampejo do gigante que poderia se tornar a equipe rubro-negra. Se Flamengo teve alguns tropeços na fase de grupos, como a derrota para o América e o empate com o Friburguense, essa vitória no Fla-Flu, da maneira que foi, deixou a torcida confiante de que a equipe tinha o principal ingrediente para merecer o apoio das arquibancadas: raça. O rubro-negro mostrava garra até em seu treinador, Abel Braga, e os pratas-da-casa estavam colocando, a cada jogo, o coração na ponta das chuteiras. A torcida olhava para Júlio César, um dos maiores goleiros, talvez o maior, que o Flamengo já revelou, e sabia estar diante de um flamenguista até a alma. O que falar então da dupla de meias Zinho / Íbson. Zinho um veterano, Íbson um garoto. Zinho um multi-campeão, Íbson louco pelo seu primeiro título. Zinho rubro-negro até os cabelos, Íbson também. Ainda tinha o atacante Jean, que, se mais tarde magoaria muitos rubro-negros ao ir atuar no rival Vasco, neste momento estava em lua-de-mel com a torcida. Até quem não devia ser Flamengo estava se transformando, como por exemplo o paulista e lateral-esquerdo Roger Guerreiro. Roger não vinha bem no torneio e a torcida pegava no seu pé, porém naquele Fla 4 x 3 Flu, ele foi o autor dos dois gols da virada. Pronto! Bastou isso para ele cair nas graças da torcida e o Flamengo entrar em seu coração.

Apesar de toda a identificação que a equipe rubro-negra passava a ter com a torcida, e a garra mostrada pelos jogadores, não podemos dizer que o Flamengo era um time sem técnica. Muito pelo contrário, dizer isso seria uma heresia. O motivo? O camisa 10 da Gávea era o maestro Felipe. Procurando palavras para definir o que Felipe estava mostrando neste ano de 2004, as encontrei em dois mestres do futebol, um dos gramados e outro da literatura.

“Moro aqui, defronte do Grêmio, e quando vem o Flamengo, vou ver o meu último craque que é o Felipe. Aí, sim, vou ao jogo. Gosto, porque todo ex-jogador gosta de ver um jogo bem jogado. Em geral, quando decido ir, não consigo ficar até o 2º tempo. Vou embora logo no 1º. A não ser que o Felipe esteja jogando.” - Aírton Ferreira, zagueiro gremista nas décadas de 50 e 60 que conquistou incríveis 11 títulos gaúchos e é considerado por muitos o maior da história do Rio Grande do Sul.*

“Felipe é a prova de que Garrincha existiu. Muita gente fala que Mané não jogaria hoje e Felipe mostra o contrário.” - Armando Nogueira**

O maior show de Felipe na Taça Guanabara foi contra o seu ex-clube, o Vasco da Gama, pela semi-final do torneio. Com uma atuação monumental do camisa 10, o Flamengo venceu por 2 a 0 e conquistou a vaga na final. Ali, naquele momento, após o apito final daquele “Clássico dos Milhões”, Felipe se tornou um ídolo rubro-negro e ninguém mais lembrava de seu passado com a cruz de malta no peito. Vaga na final da Taça Guanabara garantida, o Flamengo enfrentaria o Fluminense, que havia eliminado o Americano na outra partida semi-final. O rubro-negro embalado. O tricolor sedento por vingança. Em pleno sábado de carnaval, mais um Fla-Flu entraria para a história do futebol brasileiro.

No dia 21 de fevereiro de 2004, podia-se falar que o mundo inteiro estava representado no Maracanã, tamanha a quantidade de turistas presentes para assisitir “O Maior Espetáculo da Terra”. O jogo de cores, o jogo de cantos, o jogo de fantasias na antiga geral, tudo era encantador. E o jogo nem havia começado. O Fluminense entrava com seu quarteto completo e, mesmo que com exceção de Roger, todos voltassem de contusão, o Flamengo sabia que tinha que se preocupar. Mas não pensem vocês que a defesa tricolor estava tranquila frente a frente com Felipe. Com tanta qualidade em campo e com tanta beleza nas arquibancadas, havia de ser um jogão. Após o apito inicial, a torcida do Fluzão não deve ter gostado nada do que viu. Quem não tivesse conhecimento do jogo da fase de grupos, acreditaria ser o Flamengo que quisesse revanche. De nada adiantaria a categoria superior do tricolor, se era possível sentir no ar a garra rubro-negra. Zinho ignorava seu posto de Penta-campeão Brasileiro e Campeão do Mundo, correndo como se fosse sua primeira decisão. Íbson ignorava ser o jogo sua primeira final e atuava como um veterano, tamanha propriedade que mostrava em campo. Aos 34 minutos o predomínio flamenguista deu resultado. Zinho cruzou uma bola tão perfeita para Fabiano Eller, que parecia ter uma régua amarrada em seu pé. Fabiano não desperdiça a chance e de cabeça abre o placar pro Mengão. Talvez por cansaço, talvez por relaxamento, já que o intervalo se aproximava, o Flamengo diminuiu o ritmo e quase pagou caro por isso. Aos 42 a bola passa na pequena área, pertinho de Edmundo, que por pouco não estufa as redes. Um minuto depois, após belo chute longo de Ramón, o arqueiro Júlio César faz segura defesa. A 2ª etapa prometia.

Diferente do que todos imaginavam após ver um esboço de reação tricolor, no fim do 1º tempo, o Flamengo voltou com tudo após o intervalo. Tenho certeza que a bronca do técnico Abelão, na equipe rubro-negra, foi daquelas. O Mengão, acreditem, voltou mais aceso que no início do jogo. Uma frase do excelente Juca Kfouri, sobre a atuação de Felipe, é inesquecível: “Cada vez que ele pegava na bola um pouco do melhor futebol de todos os tempos tomava conta do mais que cinquentenário Maracanã.”***. O Flamengo encantava, e o goleiro tricolor Kléber sofria. Era cabeçada que passava perto, chutaço de Jean que batia na trave, outra vez Jean obrigando-o a defender com os pés. Como penava o Kléber. Mas eis que o futebol decide aprontar uma das suas. O lateral-direito tricolor Léo Moura, uma das principais armas da equipe durante todo o torneio, dá lindo passe para o zagueirão Antônio Carlos empatar a partida. Este gol foi aos 20 minutos, e deu início à uma tempestade de emoções. O que se viu na sequência do jogo parecia um sonho. Muitos deviam ter se beliscado para ter a certeza de estarem acordados. Com apenas um minuto passado após o empate, o trio flamenguista Diogo, Rafael e Jean faz uma jogadaça pela direita, com o último completando de carrinho para o fundo do gol. Explode a torcida rubro-negra! Aos 25, o Fluminense contou com a ajuda do jovem zagueiro do Flamengo Henrique, que ao tentar cortar um cruzamento para área empurrou a bola contra a própria meta. Jogo empatado novamente. Explode a galera tricolor! A decisão estava tão elétrica, tão inacreditável, tão emocionante, que muitos devem ter se esquecido que havia um predestinado em campo. Um escolhido. E nas horas decisivas que esses jogadores aparecem. O relógio marcava 30 minutos quando Íbson pegou emprestado a régua que Zinho usara na 1ª etapa e deu um passe açucarado para o iluminado Roger. No meio de dois adversários, Roger correu. Honrou o sobrenome Guerreiro. Honrou sua estrela. Honrou seu apelido de “Roger Fla-Flu”. E com um magistral toquinho na bola, colocou o Flamengo novamente na frente. Definitivamente na frente. Os 15 minutos restantes se resumiram a assistir a festa da torcida. O que se viu no campo fora incrível. O que se via nas arquibancadas, não menos. Taça e poeira eram levantadas, com a mesma euforia. E eu fico pensando onde será queos turistas encontraram palavras para explicar o que viram, ao voltarem para suas terras?

Flamengo 3 x 2 Fluminense

21 de fevereiro de 2004

Maracanã – Público: 65495 torcedores

Gols: 1º tempo: Fabiano Eller (Fla) aos 34´; 2º tempo: Antônio Carlos (Flu) aos 20´, Jean (Fla) aos 21´, Henrique (Fla), contra, aos 25´ e Roger (Fla) aos 30´.

Flamengo: Júlio César; Rafael, Henrique, Fabiano Eller e Roger; Robson, Íbson (Anderson Luís), Zinho e Felipe; Jean (Rafael Gaúcho) e Diogo (Andrezinho)

Fluminense: Kléber; Léo Moura, Antônio Carlos, Rodolfo e Júnior César; Marcão, Marciel (Alessandro), Ramón (André Luiz) e Roger (Alan); Edmundo e Romário

*Aírton Pavilhão – O Zagueiro das Multidões – Celso Sant’ Anna
**Diário Lance! – 13 de abril de 2004
***Diário Lance! – 22 de fevereiro de 2004