quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

GÊNIO DAS PALAVRAS - MARIO FILHO

Telê

Descobrimos Telê todos os anos. E o curioso é que ele é sempre o mesmo. Não há jogador mais fiel a si mesmo. Por isso Telê se repete. A repetição esconde-o, faz a gente se esquecer dele um pouco. O termo não é esquecer. A presença de Telê é uma dessas coisas que ninguém pode ignorar. Ele joga os noventa minutos. Dito assim parece que não é nada de mais. O jogo dura noventa minutos, o que pode sugerir, como sugere à primeira vista, que todos jogam noventa minutos. Jogariam, se não fosse Telê. Quer dizer, a gente não ia desconfiar que não jogam, se não fosse Telê. Telê trouxe uma nova medida de tempo para o futebol. É, de algum modo, o ponteiro dos segundos, o que não pára. Os outros são, quando são, o ponteiro dos minutos. Há, até, os que não são ponteiros: são os cinco, os dez, os vinte, os trinta, os sessenta, os números que os ponteiros atravessam, girando. Ponteiro de segundos é Telê. E vocês, que têm relógio, vão compreender melhor por que se descobre Telê, todos os anos. Para ver o ponteiro dos segundos, a gente precisa ser um pouco médico, que todos somos, contar as pulsações.

E é justamente quando se toma a pulsação do match, Telê jogando, que se descobre esse ponteiro dos segundos. Então há sempre um espanto, embora todos estejam não digo cansados, nem fartos, nem nada de ver Telê e sempre assim. O espanto vem daí, dessa repetição que se poderia chamar, dentro da relatividade do futebol, de perene. Um jogador demora um pouco a acabar e poucos resistem a chamá-lo de eterno. O que Telê faz, outros fizeram e fazem, mas num jogo. Escolhem um jogo e molham a camisa e não param, e vão para a frente e voltam, e avançam e recuam, dum lado para outro. Depois tomam férias. Não são de ferro. Ninguém reclama porque concorda. Se se jogasse sempre assim, não havia jogador que aguentasse. Telê aguenta. Percebendo-se isso, apesar de público e notório, a boca se abre e é a perplexidade. Sobretudo porque Telê é quase só ossos, não há jeito de ganhar nenhum quilo. Como?

E o mais curioso é que Telê é um pão-duro. Depois de dizer isso, retifico: não é o mais curioso. Parece haver uma contradição entre a generosidade de Telê em campo pelo clube e não dando nada fora do campo. Não há. Pelo menos me vem à memória outro pão-duro que, em campo, era uma fera. Telê não é uma fera. Zezé Procópio, unha-de-fome, em campo se matava pelo clube. É verdade que não dava a impressão de que se estivesse matando. A impressão que dava é a que estava disposto a matar qualquer um. E saia da frente. Agora me vem outra idéia: o que Zezé Procópio parecia é que estava cobrando dívidas, que cobrava com juros altos, que cobrava até 50% por semana. Também ficou rico. Era um agiota, coisa que Telê não é. Telê é sumítico, com dinheiro, mas com a bola, defendendo o Fluminensem é um mão-aberta, um estróina.

Estróina – eu disse estróina? – não, Telê não lembra um estróina. Apenas cumpre a obrigação dele e, para ele, a obrigação dele é aquela. Realmente, procede como se não fizesse nada de mais e cumprisse apenas a obrigação. Quem quiser cumprir direito a obrigação, transformada em dever, o que se tem a fazer tem de ser feito, verificará que precisa ser um Telê. Por isso Telê é um exemplo. Ele não mete o pé em ninguém, não descompõe ninguém, não faz mais do que pode fazer normalmente. Nele aquele esforço todo é natural, espontâneo. Por muito menos outros jogadores se sentiram carregadores de piano. E gritavam logo que estavam cansando. Telê não cansa. E o espantoso é que não cansa nunca, esse fiapo de jogador que não pára nem quando a bola está fora. O comum é o jogador sem bola parar logo. Telê sem bola é que não pára mesmo.Eis por que joga os noventa minutos. Primeiro 45, descansa dez no intervalo e mais 45 minutos cravados. Falei nas bolas fora porque o juiz não desconta tempo, a não ser que venha a cera, ostensiva. A multidão protesta, o juiz olha para o cronômetro e anuncia, olhando o cronômetro, que está descontando o tempo. Quando há desconto do tempo, Telê joga mesmo mais de noventa minutos. Vou explicar direito, já que pode haver quem não me entenda. Eu quero dizer que Telê está no jogo os noventa minutos ou mais, com os descontos. A atenção dele não se desvia da bola. Mesmo a bola caindo no fosso do Maracnã, isto é, desaparecendo da vista da gente. Telê, então, fica olhando o garoto que segura aquela espécie de apanhador de borboletas para ir buscar a bola.

Para Telê é importante. O quíper vai receber a bola, vai colocá-la sobre a linha da pequena área, talvez seja o quíper quem bate o tiro de meta, talvez seja o beque. Telê tem de estar preparado para receber aquela bola ou para roubá-la. Ele é um ladrão dessas bolas sem destino certo, um descuidista dentro do campo. Bola sem dono é de Telê. Quem o chama de ladrão é o Benício Ferreira Filho. E o termo é bom porque quando o quíper do outro lado, ou o beque, bate o tiro de meta, é para dá-la a um jogador do time dele e não a Telê. Mas Telê já está à espera da bola. Há jogadores que olham no momento do tiro de meta, para ver a direção da bola. Telê estava olhando antes. A bola do tiro de meta, a bola do out-side, a bola que espirra, a bola que foge, a bola que toma efeito, a bola que pára, a bola que anda, a bola que salta.

Se um jogador espera um passe e não se antecipa, está sem bola, Telê apareceu, para muitos não se sabe de onde. Mas se alguém, em vez de olhar para a bola, olhar para Telê, que é quase a mesma coisa, não tem de que se espantar. Telê está sempre se colocando, mudando de posição, e de olho na bola, ela esteja perto ou longe. Mas não se olha Telê, olha-se a bola, embora se saiba que Telê está no palco, digo no campo. Mas podia dizer palco. Dão a deixa e ele aparece. Só que, no futebol, dão muito mais deixas do que no palco. É, porém, difícil ser Telê, pegar todas as deixas. Sobretudo porque não se reserva para Telê o papel prinicpal. Ele é que toma e com a naturalidade de quem não está tomando nada. De quem está apenas representando o papel que lhe foi destinado.

Apesar de tudo, se devia ver mais Telê. Ele merecia que a gente se voltasse mais para ele. Ou que, pelo menos, se visse melhor o que ele faz. Vê-se Telê, mas não se vê direito o que ele faz. Não se fraciona a jogada dele, não se a coloca debaixo de uma lente para ampliá-la, como se faz com as jogadas de tantos outros. Talvez porque Telê não chame a atenção sobre si mesmo. Há jogadores mestres nisso. Vão fazer uma jogada e como que avisam. Os olhos da multidão se voltam para ele e ele então começa a executar o número variado. Já Telê é a peça toda. Dá a impressão de que há sempre tempo para vê-lo. Há realmente sempre todo o tempo para vê-lo. Ele entrou em cena agora, vai voltar me seguida, estará sempre no palco, a deixa não tarda.

Basta que um jogador se sobressaia um pouco num match em que jogue Telê para que se esqueça um tanto Telê. Há sempre tempo para se lembrar Telê. Realmente há sempre tempo para se lembrar Telê. Mas se deixxa o tempo passar. De tanto se espantar com Telê, a gente chega a achar, sinceramente, que esgotou toda a capacidade de espanto. O que era uma injustiça, o se quecer de Telê, passa a ser a única maneira de fazer-lhe justiça. De outra forma não o descobriríamos mais, já lhe teríamos o mapa, que temos, com as capitais, que temos, os acidentes geográficos, que temos, as riquezas mineirais e vegetais, que temosmas que, por termos, dá-nos a segurança de saber tudo, que é a melhor maneira de esquecer.

Porque o esquecemos, tantas vezes, é que o descobrimos outras tantas. Descobrindo-o de novo é como se nunca o tivéssemos visto, pelo menos assim. E assim era ele, e é, e a gente também acha que será toda a vida. Até que acabe. Mas parece não acabar nunca. Dura se esbanjando. É um milionário de futebol. Milionário americano, de fita de cinema. E o que preocupa é o futuro. Não de futebol, o outro, o sem futebol. Por isso trabalha, tem negócio, guarda, guarda tudo. Só não guarda futebol. O que tem dá ao Fluminense às mãos-cheias. Geralmente o jogador de futebol faz o contrário: esbanja o dinheiro que ganha e economiza o futebol, para esticá-lo o mais possível.

E o que acontece é que, quando lhe acaba o futebol, não tem nada. Telê é o contrário: guarda o dinheiro, trata de aumentá-lo, de entesourá-lo e talvez seja isso o que lhe dê essa tranquilidade em não regatear nada no futebol. Acabando o futebol, ele continuará com a vida dele, de pai de família e homem trabalhador. Pode dar o que tem em futebol, generosamente, de coração aberto. Aliás, só se sabe jogar assim. Não é esse o melhor caminho para a popularidade. Gosta-se de Telê, admira-se Telê, mas se precisa sempre descobri-lo de novo. O que é um mal e é um bem. Quando se o descobre de novo é como se surgisse um outro Telê. E a verdade é que é o mesmo, o de sempre, o de todos os dias, o mais cotidiano dos jogadores.
01/09/1956
retirado do livro "O Sapo de Arubinha - Os Anos de Sonho do Futebol Brasileiro" da Editora Companhia das Letras

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